Não há motivos para se envergonhar
Também choro por pretéritos mais-que-perfeitos
E em presentes do indicativo
O tempo conjuga bem todas as lágrimas
"A vida é muito curta para ser pequena" (Benjamin Disraeli)
"Olá! Tem alguém aí?" - Ela fala abrindo a porta, sorrindo. Eu sempre me escondo na cozinha esperando ela passar direto para surpreende-la. Ela sabe que não sou tão criativo em esconderijos quanto sou em fugas, mas a reação é a mesma enquanto o vento inunda tudo por causa da porta aberta do apartamento. Então sempre sorrimos e largamos as coisas pelo chão, as coisas que eram importantes lá fora até o exato momento em que passamos por aquela porta. À tarde o frescor é tão legal. Eu sei que está quente lá fora. Todo mundo sabe. Mas nada disso consegue nos alcançar, a não ser de forma subliminar.
Eu tinha um grande herói nos tempos de faculdade. Era o Dilbert. É, esse mesmo das tirinhas. Meus colegas diziam ser um mal sinal e alguns professores perguntavam o que eu estava fazendo ali quando sabiam. Mas sempre pensei que o Superman teria sido mais legal se, quando botasse os óculos, se transformasse nele. Seria uma ótima maneira de se salvar depois de salvar o mundo. Mas heróis são estranhos. O Dilbert não era estranho. Era mais lógico que a matemática aplicada nas tardes em sala de aula. Talvez fosse só um lugar errado e eu nunca assumirei.
Essa semana "reencontrei" dois grandes amigos e lembramos de nossas vidas juntos, nossas tardes juntos. Enquanto a ligação e as mensagens de texto eram trocadas, eu tive a certeza de que, em algum lugar do universo, nossas lembranças são coisa sólida acontecendo novamente. Há coisas tão felizes dentro de nós que quando a voz do outro lado nos faz recordar levanta até uma dor. E é bom, mas também tão melancólico, pois fico pensando quem sustentará tudo isso quando já tivermos passado. Mas também é como se, profundamente, houvesse uma certeza de que o universo está aí por causa de nós e de que não haverá esquecimento.
Nossas lembranças mantém universos inteiros e não quero aceitar o que acontecerá com eles quando tivermos partido. Toda a vida é passado e futuro, mas o presente é infinito. Apesar de ser o único lugar em que estamos, nenhum ser humano cabe no presente - Estou convicto disto desde o fim de tarde de hoje - É por isso que sustentamos universos dentro de nós.
Lembro da semana passada quando você rasgou meu olho ao perceber que ainda cultivo gostos antiquados para os tempos em que vivemos. Tempos que suas mãos estão construindo. A lâmina perfurou a íris por puro reflexo do corpo ao tentar livrar a cabeça de ser decepada.
Você lamenta por eu ter ficado de pé, pois tem certeza de que eu aprenderia mais vivendo como você vive. Mas eu rejeitei o mundo perfeito e cheio de possibilidades me oferecido como chantagem. A mim e a todos os meus amigos. Eles se renderam, desistiram para não serem excluídos de suas listas, não serem cortados do seu baile e não receberem nomes que não os de seus nascimentos. Você sabe que eu não me anularia a esse ponto para caber no novo mundo livre que você disse.
Posso estar vivendo a vida por um olho agora, mas ainda choro a liberdade pelos dois. Você pode ver as lágrimas em cada lado do rosto secando nas bochechas. Em apenas um olhar ainda posso enxergar a melancolia desse mundo cheio de possibilidades, mas que resolveu ser um mundo de cegos com lâminas que ferem e de gente que precisa lutar todos os dias para continuar conseguindo enxergar.
Você lembra dos tempos passados, dos lugares em que juntos víamos tudo?
Por não estarmos sozinhos. Por toda a liberdade para sorrirmos. Pelas dádivas que nos alcançam enquanto nem as percebemos ainda. Pelo livramento.
Devemos tudo aos cuidados de Quem está além das nuvens. Do Único que criou todas elas e nos fez para sermos preenchidos com a Sua felicidade. A data de hoje é só uma coincidência. Esse é um agradecimento tardio, mas eterno. Obrigado!
Todo o mal passará, eu sei!