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sábado, 31 de outubro de 2020

Não é isso

(imagem: daqui)

Lembro da semana passada quando você rasgou meu olho ao perceber que ainda cultivo gostos antiquados para os tempos em que vivemos. Tempos que suas mãos estão construindo. A lâmina perfurou a íris por puro reflexo do corpo ao tentar livrar a cabeça de ser decepada. 

Você lamenta por eu ter ficado de pé, pois tem certeza de que eu aprenderia mais vivendo como você vive. Mas eu rejeitei o mundo perfeito e cheio de possibilidades me oferecido como chantagem. A mim e a todos os meus amigos. Eles se renderam, desistiram para não serem excluídos de suas listas, não serem cortados do seu baile e não receberem nomes que não os de seus nascimentos. Você sabe que eu não me anularia a esse ponto para caber no novo mundo livre que você disse. 

Posso estar vivendo a vida por um olho agora, mas ainda choro a liberdade pelos dois. Você pode ver as lágrimas em cada lado do rosto secando nas bochechas. Em apenas um olhar ainda posso enxergar a melancolia desse mundo cheio de possibilidades, mas que resolveu ser um mundo de cegos com lâminas que ferem e de gente que precisa lutar todos os dias para continuar conseguindo enxergar. 

Você lembra dos tempos passados, dos lugares em que juntos víamos tudo? 


segunda-feira, 22 de junho de 2020

O Mundo de hoje de manhã

(Imagem: daqui)

Não consigo recordar quando tudo começou a mudar. A primeira lembrança foi de quando resolveram substituir empatia por outros termos. Mas não sei o que veio antes. Depois veio um turbilhão.
Já não era mais possível se colocar no lugar do outro apenas por ter sangue nas veias e algo no coração. Era preciso mais, o mesmo tom, o mesmo local de origem. Então percebemos que estávamos classificados em grupos e toda vez que tentávamos nos abraçar parecia que eramos um jogo de lindas bonecas Matrioscas, mas na verdade viramos cebolas descascadas até sobrar quase nada. Apenas o choro era verdade.

As nossas profundidades e vazios nos distanciam, mas não era assim há pouco tempo. Sempre fomos tão diferentes e isso nunca foi um problema. Depois da escola, nos fins de semana, ao ligar a TV. Nada disso nunca nos ocorreu. Chamar de inimigo e se afastar de alguém que abraçávamos todos os dias no intervalo de uma aula comum, num fim de dia comum, soa como se a humanidade tivesse sido abduzida. Não! Nós demos nossa própria humanidade de presente para alguém que sequer conhecemos. E agora obedecemos ordens e conselhos de um vulto distante.

O seu perfume ainda está em minhas roupas, todas as conversas, todos vocês.
Nunca nos perguntamos para que time torcíamos antes de decidir se era licito ligar ou se importar. Quem nos ensinou isso agora? Na porta da escola tudo parecia claro. Eramos nós e o mundo ao redor, nós ao redor do mundo onde agora crescem muros. Quem te ensinou que apenas quem já passou pelo que você passou pode chorar por você? Enquanto também me definho por sua dor, você deixa seus braços abertos para outros que te consolam. Outros que usam o seu lamento como um hino para os empreendimentos deles.

Nossa felicidade é a ruína da canção deles e eles nunca te dirão! Vamos voltar a cantar as nossas músicas! Você nunca se importou com a afinação. Eu sei, pois sou da mesma substância que você. Você e eu somos iguais. Iguais, iguais! Não vamos nos enganar com o sol dessa manhã. Certamente ainda não amanheceu verdadeiramente! Eu não quero mais atirar pedras e chamar isso de liberdade!

Vamos fechar os olhos e quando abrirmos não estaremos do meu ou seu lado do muro, ou do lado do muro que disseram que deveríamos estar. Vai ser dia e haverá canções que não dividam, que aceitem as nossas folhas como antes. Canções sólidas e cristalinas, que deixarão vermos novamente as nossas raízes. No "três" nós podemos começar? Você vem?

1.. 2.. 3!!!

quinta-feira, 28 de março de 2019

O alicerce de toda a vizinhança



Essa noite me flagrei pensando em meu bairro de infância, em como seria bom se estivesse vivendo nele. Como se o calor do sol na pele e a grama verde depois da chuva ainda estivessem esperando por mim igual aqueles dias.


Tão tarde para vias hoje perigosas... voltar para todos os amigos e vizinhos e mergulhar pelas ruas através do Google Street View... ainda não era muito tarde pra sair dessa maneira atrás de lambanças, e de noite eu só pensava na minha rua e na casa que hoje não existe mais tal como era no tempo em que encontrávamos um com o outro ao final de curtos períodos de espera. Já reparou como o último adeus nem sempre é dado por nem sempre sabermos que aquela é a última vez?

Pelas ruas ensolaradas percorri o caminho que fazia para as três escolas em que estudei e para lugares que ainda conhecia como a palma da minha mão. Lembrando risos, rostos e pessoas por inteiro, senti ciumes e raiva por certas mudanças que apagaram da tela o que ainda está concreto dentro de mim, até que veio o aterrador questionamento de quantos dos que estão em meu coração ainda estariam lá. Pensar nisso fez o colorido desbotar por um instante e tornou aquele bairro um bairro fantasma, apenas com concreto e asfalto, sem o ar e o sangue que dão vida. Fui na casa de todos e fiquei perturbado com tantas mudanças, com tantas fachadas e portões cerrados. Não haviam mais portas e calçadas de grama até as salas, tudo me deixava na rua, como um estranho, um soldado que volta depois de anos à pátria e é apenas mais um.

Existem coisas que não cabem no coração, e precisam ser expressas ou vividas, ou vividas novamente. Por ser impossível se viver a imensidão por completo outra vez, me agarrei na possibilidade de manter na memória o que era, mas cada vez que percorria as ruas, tudo ia embora da minha mente, os nomes, os cheiros, as dores, e depois voltavam num turbilhão debaixo de um céu estático em uma página de internet.

Eu também me sinto em casa bem aqui, do outro lado da tela, mas não sei se reclamaria se nunca tivesse saído de lá. Então percebi que nossas raízes nunca saem de nós. É assim que os lugares que nos pertencem demonstram amor, através delas. As lembranças se tornam coisa sólida, motivo e impulso. É tudo troca. Por ter raízes num pequeno lugar, por ter amado e vivido em um pequeno lugar, posso sentir tudo de novo onde quer que eu esteja e isso é uma benção!

Dentro de nós reside a criança que éramos brincando na rua num dia qualquer, dentro de cada um de nós há um bairro de infância que nos tornou mais humanos dizendo que todo o amor e inocência podem ser vividos em outros lugares e tempos. Quem ainda lembra nunca foi embora de verdade. Basta abrir o coração, fechar os olhos e enxergar. Não existe adeus definitivo para as coisas guardadas no espirito.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Sobre o mundo e as pedras que rolam

Fiquei surpreso essa semana ao abrir uma carta que recebi de amigos, "pra você" eles disseram. Li, e o que li me espantou, não pelo conteudo, mas pelo seu final. Era meu nome que estava escrito no lugar da assinatura. Embora eu conheça a letra de quem fez isso, não me importei tanto, entendi o significado. Acho que essa pessoa não vai se importar se eu publicar o que li no curto periodo e que não entendia direito.
Segue então a carta.
P.S.:Ei A. era melhor ter me dado um espelho!
"No primeiro período em que fui careta, tempo que durou da infância até o inicio da adolescência, via as meninas chapadas e as amava.
Os berros da Janis e do Kurt me fascinavam e ainda exercem certo fascínio sobre mim. Quando me tornei um deles me vi perdido. Ainda com a admiração e o amor cavei fundo o poço, dava pra sentir o hálito da morte.
Consegui sair, pensei que sairia ileso. Agora o que exerce fascínio sobre mim são as pessoas felizes, são as pessoas que eram como eu antes de a vida capotar e seguir em frente.

Minha coragem me levou até à beira da morte. Hoje prefiro ser um covarde aos olhos do mundo! – quero cegar os olhos do mundo! Por não conseguir vivia como quem escreve sob pseudônimos.
Quando era assim, o mundo se dividia entre a vida e as coisas que eram proibidas. Agora é a vida e as coisas que não posso mais tocar.

No segundo período de caretice - do fim da adolescência até esse exato momento - há um labirinto para todos os lados e um minotauro dentro. O equilíbrio dura até quando ele me encontra e me oferece o mundo de volta. Nessas horas é preciso coragem para evocar a covardia e recusar a oferta.
É preciso (re) aprender os caminhos, pois ele sempre volta com flores e armas nas mãos e tudo isso é só para beber meu sangue. Que ele fique com o mundo! Eu quero a vida, em cada palmo, em cada raio de luz.

O circo está armado de tal modo que tudo distrai, o que pode ser visto e o que não.
E quando olho para trás há flores, mas também há uma arma suja de sangue faminta por mais e mais e mais... O melhor jeito de se livrar de algo talvez seja nunca encostar nesse algo. Agora é tarde, minhas digitais estão por toda parte.

Porém, contra o abismo disfarçado de coragem (e de rota de fuga para a liberdade) eu ofereço mãos limpas e coração puro. Já tenho tudo o que preciso, e ele quer vitória? Eu entregaria de mãos beijadas apenas para ver ele se acordar e perceber que estava cego! -Talvez ele não acorde mais. E eu não posso mais dormir por tanto tempo.
Você quer vitória? Vamos ver quem é que vai vencer agora!"

terça-feira, 22 de julho de 2008

Uma semana à luz da familia e amigos

( Foto: Jose - http://www.flickr.com/photos/raveneye)
Andava pela casa em direção a cozinha quando percebi meu quarto mais claro que o de costume. O motivo era que os raios de sol entravam pela janela e refletiam na capa de um livro embranquecendo todo o quarto. Essa brancura causou a sensação de estar no topo de um lugar muito alto, de onde dá para observar a cidade ou mesmo o mundo inteiro sem que nada de mal pudesse me atingir.
Quis não querer perder essa sensação, e por ter sido tão breve tentei continua-la por mais tempo o que me lembrou que semana passada durou menos tempo do que gostaria, mas o mês ainda não acabou. Mesmo que às vezes eu esqueça.
E ao inicio do novo ciclo pude enxergar que há paz em cada canto da casa e da vida.
Só pude perceber porque finalmente consegui me achar e ver que me interesso por outras coisas que não apenas as de antes. É importante que não esqueça, pois posso me perder de novo. Quase sempre me perco de novo.
O que quero dizer é que o passado pode ser um belo quadro para olhar em certas ocasiões, mas nunca, nunca para viver nele - desisti de viver nele.
E essa percepção despertou um sentido de liberdade – alma leve e corpo tranqüilo – bem como uma admiração pelo desconhecido, como sentir saudades por um filho que ainda sequer nasceu.

Não é que eu me perca para depois me encontrar, é que não consigo ficar “encontrado” por muito tempo. Talvez isso nem seja um defeito, é apenas o que é.
Sei que isso pode ser problema, pois vivo cercado por pessoas que tem motivos de sobra para reclamar de mim, mas nunca reclamam. Elas preferem dar uma segunda chance. E são elas quem me fazem me encontrar, assim como a luz no quarto também fez.

Nessas horas penso que esse pessoal tem parte com Deus, porque sempre penso nEle quando passo a pensar neles. Também porque sei que assim como aquela luz só poderia estar a iluminar a vida daquele modo que aconteceu, essas pessoas também iluminam minha vida desse modo: Deus quer que eu O veja todo dia, e para que eu entenda me fez ter família e amigos.