segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Três recém-nascidos

(imagem: daqui)

 

Algo que descobri no primeiro momento que a vi é que os filhos já vem prontos. Não prontos no sentido de que não precisam de cuidados antes e depois de nascerem. De certa forma nós não damos muito para eles serem o que são quando chegam a esse mundo. Não podemos. Tudo ali é uma obra anterior igual a mim e a você, já edificados antes de nascermos. Naquele momento pensava sem palavras quando a vi em minha frente. E nenhuma palavra pra descrever o que pensava ainda foi criada. 

Essa descoberta me revelou algo que nunca cheguei a cogitar, depois da certeza de que os filhos já vem prontos ao olhar para ela, algo inundou minha cabeça e me deixou desconcertado naquela sala: são os pais que nascem quando a criança sai do ventre. A sensação de algo novo não era pela menina que acabara de chegar, ela já nasceu ela mesma. O choro, o olhar, a respiração, o toque. Médicos, funcionários e adultos ao redor não ensinaram nada a ela. São os pais que se tornam algo novo quando os filhos chegam. 

Isso me arrebatou de uma forma que fiquei estático por alguns segundos vendo a médica colocando-a em meus braços. Quando olhamos um para o outro era como se fosse ela quem estava me dando as boas vindas por um tempo. Como se ela também sabia que estava vendo alguém nascer na frente dela de uma forma tão gritante que seu choro parou e ficou apenas me olhando. O olhar dela dizia: trouxe isso para vocês. É o seu esse outro nascimento. 

A outra certeza que tive naquela sala foi a de que minha geração foi enganada. Enganada por acreditar que não nascer dessa forma deve ser a regra de agora. Que carreira, planeta, governos e o que quer que seja que fique entre você e esse acontecimento é mais importante. Não é. Não falo isso como uma obrigação para todas as pessoas. Apenas pensamos errado por querer sobre o assunto.

Naquele momento um fio que liga toda a humanidade parecia estar sendo ligado em minha alma e todo o medo foi embora. Era ela a mão que puxou a corda. Que apertou o interruptor de nossos espíritos, como ela faz hoje com o interruptor da luz da sala quando está em nossos braços. 

Fiquei dois dias acordado em um deslumbramento que me fez esquecer parte do mundo, os avisos no trabalho, declarações e atestados. Sai da maternidade com as mãos vazias e o coração cheio da melhor coisa que fiz da minha vida. Haviam outros corações cheios na chefia que também passaram por algo semelhante há algumas décadas e entenderam meu relapso. 

Isso já faz 365 dias e agora acordamos antes do sol nascer na maioria das vezes, ao lado de um novo sorriso que revela 4 dentes. Ela as vezes grita, sorri, ou bate palmas nessa ocasião logo cedo, a melhor hora do dia, e também sorrimos. Três recém nascidos: dois adultos e uma bebê. 

Ninguém no universo deveria se privar disso!