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quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Adeus à cidade


(Imagem: daqui)

Eles levaram tudo
Eles levaram tudo pra o outro lado da cidade
Nada mais é como antes
Nada mais é como antes que bom que seja para a cidade

Te encontrava às tardes e não podíamos voltar
Por aqueles dias não dava pra adiar
Os desencontros em nossa idade
Ainda não mandávamos em nossas vontades

Eles tiraram tudo
Eles tiraram tudo o que havia de nós na cidade
Agora nos perdemos fácil
Nos perdemos tão fácil nos caminhos de infância

Seu nome escrito em papéis de cartas
E hoje em dia números bastariam
Pra te encontrar na cidade
Somos lembrança e fotografias

Te vi um dia com sua nova família
Te reconheci
Pelo sorriso e os brincos

Você perguntava
Se ficavam bonitos
Em você e na cidade

Nós nunca dissemos adeus
Nós nunca fomos apresentados
À palavras tão sem sentido

(Adeus a você e à cidade)


domingo, 21 de março de 2021

A cidade sob o céu - III Movimento


(Imagem: de um dia depois do trabalho)


Cumulonimbus ou Ar rarefeito ou Caos

Todo dia a noite apaga
A estrela que ilumina
E o vento levava as folhas
Que se enroscavam no portão
E furacões levavam bairros inteiros
Quando morávamos no mesmo quarteirão

E eu tinha de estar de leve bêbado
Para alcançar aquela felicidade
Mas nós nunca conseguíamos lembrar
E já é tempo de esquecer
Não quero ver a festa acabar
O que mesmo podemos mover?

Podia jurar que essa samba era um blues
Ah, eu podia jurar!
Mas não, não é. Não sei por que não é.

Vem ver uma coisa que meu pai tem na gaveta
Você ainda se assusta com essa imagem?
Ele me fez prometer que eu iria esquece-la
Quando voltasse a ficar triste

Ah, minha cara. Lá fora
Há tantos gritos e explosão
Aqui dentro é tão difícil. Confusão
E você chorava por uma estrela
E eu pelas constelações
Enquanto furacões levavam bairros inteiros
Os furacões levavam bairros inteiros!


domingo, 14 de março de 2021

A cidade sob o céu - II Movimento


(Imagem: de um dia depois do trabalho)


Stratu ou Asfalto Molhado

O céu atrás das nuvens
Asfalto molhado
Poças d'água nas calçadas
Posso te ouvir daqui
Ou a centenas de quilômetros
Ela está sugando a sua vida
Posso ver daqui
Ela sugando a sua vida

Ei, pegue uma guitarra
E grite bem forte!
Vamos nos trancar no quarto 
E cantar o mais alto que pudermos
Para bem longe daqui
Para centenas de quilômetros
Se parar a cidade matará você
É, ela matará você!

Então deixe o vento até quebrar o concreto
Mas não vamos parar com a canção
É amor enquanto o efeito não passa
Será amor até o efeito acabar
Se parar a cidade te matará
Se parar a cidade matará você
Isso é tudo o que ela sabe fazer
Isso é o melhor que ela pode fazer

Quando chove
O asfalto molhado cheira à margarina
Quando chove
Nossa cidade inunda, das portas às esquinas


domingo, 7 de março de 2021

A cidade sob o céu - I Movimento


(Imagem: de um dia depois do trabalho)


Cirrus ou Calçadas e jardins

Ombros em todas as direções
Olhos e olhares e as multidões
Vias em tons escuros, em caminhos que atravessamos
Vias invisíveis, fios de cabelo flutuando
Ruídos soando em lindas canções

Projéteis procurando abrigo
Num coração perdido
Paraísos e abismos
Pores do sol esquecidos
Firmamento derramado
E câmbio flutuando
Pra partir daqui tem que lutar

Há um rumo certo em outra direção
Na contramão das cópias de cópias
E dos homens anarquistas
E dos homens em Mercedes
E de todo o ódio da TV
E do "Ser ou não ser?"
Que agora é a razão

Um mergulho na multidão
Atravessamos as barreiras invisíveis
Na vida in flutuando

Que a chuva lave a cidade que eu amo
Que a chuva leve a cidade que eu amo
Que a chuva leve e lave o tanto quanto
Eu odeio a cidade que eu amo


sábado, 1 de fevereiro de 2020

As árvores da Hermes Fontes

(Imagem: Arquivo pessoal 15.12.19)

Eu trocaria a Amazônia e um punhado de ambientalistas por você. Queria estar sentindo a perda como alguém que dá valor a algo apenas na hora do fim, como quem passa sem perceber a todo instante por esse algo, não sabendo diferenciar o objeto de acalanto do resto da paisagem. Assim a dor duraria pouquíssimo tempo. Mas seu cheiro, barulho e até o reflexo do sol no fim da tarde em meio à avenida poluída e barulhenta estão cravados em minha pele e memória desde a adolescência.

Uma vez li uma HQ em que um gangster se opunha ao progresso dos negócios do seu chefe, pois, para isso acontecer, partes da cidade que ele tanto amava (amar era a palavra certa que não foi empregada, mas gangsteres e homens de coração armado como eu dificilmente usam essa linguagem) teriam que deixar de existir. Ele morreu por conta disso. Eu percebo isso agora quando uma parte de você é cortada sob o aclamado pretexto do progresso feito por homens que não se planejam.

Eu venderia cada litro do Atlântico com toda a sua flora, como aquele homem vendia drogas na HQ, para pagar o preço de ver você de pé enquanto transitava para qualquer lugar. Não queria ter me apegado, mas foram tantas partidas que a única coisa que fazia tudo ficar junto e aquecido de novo era o cheiro que você deixava na avenida poluída em determinadas épocas do ano, então os rostos, as vozes e sorrisos voltavam em minha mente como se fossem coisas eternas.

Você deveria ter partido depois de mim, porque ciclistas não servem para nada, e poucos minutos de ganho no transito não são mais importantes que as pessoas que marcaram vidas naquela parte da cidade que só você sabia os caminhos. Esse é o motivo de eu ter me apegado a você como um amigo que traz noticias de quem partiu para longe. Egoismo não é ter a mão no mundo todo e roubar quem tem apenas uma avenida?

Deixe o papo de conformismo para quem gosta de se conformar. Não há pessoas que falam com as paredes e as ouvem? Escolhi um punhado de árvores, as quais nunca perguntei os nomes, e que agora já se foram, para um papel semelhante. Mal não havia. Outros também foram te ver no primeiro domingo depois do inicio do fim. Alguns também tiveram seus caminhos por ali, e nossos olhares diziam:  "Adeus, portal de memórias. Até nunca mais!"


quinta-feira, 28 de março de 2019

O alicerce de toda a vizinhança



Essa noite me flagrei pensando em meu bairro de infância, em como seria bom se estivesse vivendo nele. Como se o calor do sol na pele e a grama verde depois da chuva ainda estivessem esperando por mim igual aqueles dias.


Tão tarde para vias hoje perigosas... voltar para todos os amigos e vizinhos e mergulhar pelas ruas através do Google Street View... ainda não era muito tarde pra sair dessa maneira atrás de lambanças, e de noite eu só pensava na minha rua e na casa que hoje não existe mais tal como era no tempo em que encontrávamos um com o outro ao final de curtos períodos de espera. Já reparou como o último adeus nem sempre é dado por nem sempre sabermos que aquela é a última vez?

Pelas ruas ensolaradas percorri o caminho que fazia para as três escolas em que estudei e para lugares que ainda conhecia como a palma da minha mão. Lembrando risos, rostos e pessoas por inteiro, senti ciumes e raiva por certas mudanças que apagaram da tela o que ainda está concreto dentro de mim, até que veio o aterrador questionamento de quantos dos que estão em meu coração ainda estariam lá. Pensar nisso fez o colorido desbotar por um instante e tornou aquele bairro um bairro fantasma, apenas com concreto e asfalto, sem o ar e o sangue que dão vida. Fui na casa de todos e fiquei perturbado com tantas mudanças, com tantas fachadas e portões cerrados. Não haviam mais portas e calçadas de grama até as salas, tudo me deixava na rua, como um estranho, um soldado que volta depois de anos à pátria e é apenas mais um.

Existem coisas que não cabem no coração, e precisam ser expressas ou vividas, ou vividas novamente. Por ser impossível se viver a imensidão por completo outra vez, me agarrei na possibilidade de manter na memória o que era, mas cada vez que percorria as ruas, tudo ia embora da minha mente, os nomes, os cheiros, as dores, e depois voltavam num turbilhão debaixo de um céu estático em uma página de internet.

Eu também me sinto em casa bem aqui, do outro lado da tela, mas não sei se reclamaria se nunca tivesse saído de lá. Então percebi que nossas raízes nunca saem de nós. É assim que os lugares que nos pertencem demonstram amor, através delas. As lembranças se tornam coisa sólida, motivo e impulso. É tudo troca. Por ter raízes num pequeno lugar, por ter amado e vivido em um pequeno lugar, posso sentir tudo de novo onde quer que eu esteja e isso é uma benção!

Dentro de nós reside a criança que éramos brincando na rua num dia qualquer, dentro de cada um de nós há um bairro de infância que nos tornou mais humanos dizendo que todo o amor e inocência podem ser vividos em outros lugares e tempos. Quem ainda lembra nunca foi embora de verdade. Basta abrir o coração, fechar os olhos e enxergar. Não existe adeus definitivo para as coisas guardadas no espirito.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Cosmopolita


(Imagem: We 52 It!)

Ele mente toda vez que quer fugir, desde que não machucasse ninguém estaria tudo bem. Tudo é por pouco tempo.

Não deixe ressentimentos para trás cosmopolita, isso pode ser doloroso quando não conseguir mais encontrar seus desafetos ainda que os procure. As pessoas, elas sempre se vão, todo o tempo. E o mundo é tão pequeno, é tão óbvio perceber.

Adiando tudo o que importa para fazer o planeta girar, até quando adiará o encontro mais importante? Você pensa que a fé já não é mais necessária em meio a tanto progresso e pessoas capazes de tudo realizarem. Encontre um abrigo para sua solidão. Dê um passo para fora e respire enquanto observa que viver é dar importância a coisas como jogar conversa fora numa tarde qualquer. Mesmo que você saiba que existe o infinito para desbravar, o tempo que te resta lhe permitiria chegar quantos metros abaixo da superfície?

O sol e as estrelas se refazem a cada dia, mas você não consegue notar coisas tão pequenas, apenas distrações. Seus filhos já não são os mesmos de poucos minutos atrás e todo adeus é doloroso para quem não pode perceber. Não reclame por não ter nada do que queria, há coisas mais valiosas do que realizar os desejos de um coração egoísta. Para quem são as flores nos jardins se não para você? As arvores e os pássaros nos confins do mundo também.

Você é jovem e há beleza em tantas coisas. Em todos os lugares existe o belo. Você sente que pertence a algum deles? Todas as pessoas que você jamais verá novamente poderiam ser algo mais que lembranças em sua vida. Você passa por tudo e alegra corações. Algum lugar lhe pertence? O céu e o mar até os confins da terra seriam seus, todos seus, se você soubesse esperar. Você já tem tudo o que precisa cosmopolita, pilhar o mundo inteiro não adiantaria nada ainda se fosse possível levá-lo para casa.

Você foi tão longe, e é bem sucedido além da média. As flores e o canto das aves no caminho te dão sensações de estar no lar. Todas as coisas belas que existem estão ai para te fazer sentir em casa e tudo será seu para sempre cosmopolita, desde que não caia na armadilha de querer tomar posse do que sustenta a felicidade escondida nos quintais de cada um.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Provinciano


(Imagem: We 52 It!)

Ele pede desculpas freqüentemente e vai dormir com pensamentos no mundo das pessoas lá fora imaginando como seria a vida longe daquilo tudo.

Qualquer mudança e toda a rotina são percebidas por você provinciano, você não teria chances no mundo lá fora, o seu coração está bem arraigado a terra. Isso te salvou da perdição. O mundo é demasiado grande, o mundo e as pessoas longe de seu circulo são complexos de se entender. Viver é mergulhar num oceano, se aprofundar e perceber que no fim não haverá tempo de ir mais fundo, às vezes, também não é possível voltar.

Você sempre sabe quando vai chover e o tempo exato das estações, mesmo num planeta tão desequilibrado. Por perceber coisas tão grandiosas acaba perdendo o compasso do mundo e dançando fora do ritmo, mas no tempo certo de seu coração.

As pessoas te acham tão bobo quando te vêem cultivando jardins ao invés de plantar edifícios em uma grande capital. Você percebe que tudo é seu até os confins da terra e divide essas coisas com os outros, mesmo os mais egoístas. Seu coração tão grande te faz perder os braços e pernas. Ah, você entenderia se tivesse visto o que vi!

O mundo é tão grande, provinciano! Se você pudesse entender a saudade que tem do que nunca esteve com você... Ela é o sentimento que leva as pessoas para longe de casa, indo encontrar do outro lado da vida o que sempre esteve em seus quintais.

Você é bem sucedido além da média, sua capacidade em saber perdoar não tem preço. Esse é o ouro mais valioso que o mundo contém. Só os loucos perdem a chance de tamanha riqueza. Só os loucos ignoram os tesouros que existem em seus quintais.