O asfalto de dia é diferente do asfalto à noite. E agora dá pra ver de forma mais nítida que, onde quer que se olhe, os horizontes estão sendo tomados por prédios dos mais variados modos e tamanhos. É assustador para alguém da minha idade ver um horizonte de concreto, ao invés de algo azul ou verde – que nem a esperança.
Um gesto de leveza pode ser interpretado mal. E a arrogância toma conta dos bem sucedidos, (nem todos), a maior parte deles. Às vezes não há um só riso ou um “bom dia!” pelas ruas e avenidas. Não consigo acreditar que todos estão ficando cinza que nem o horizonte ao redor. O que houve com a minha cidade?! Desde quando demonstrar força é sinal de fraqueza? Quem falou que a arrogância é pré-requisito básico para ser bem sucedido na vida?
Todos estão prestes a entrar num sono assustador, e eu não sei por qual razão, mas sinto. Mas se for por causa dos horizontes fechados de agora é só olhar pra cima onde o céu ainda é azul à noite, e nada cinza poderá tocá-lo.
Se você levantar a cabeça em meio ao rush do meio-dia ou das 18:30hs em minha cidade, poderá ver como agente era há algum tempo atrás.
Quando estou dormindo meu coração ainda está desperto, quando todos parecem estar protegidos do mal ao redor, pareço ser a única vítima (ou na verdade um louco de rua).
“Isso não é nada comparado à New York ou São Paulo. Você tem que viver a vida que está ai!” Quando ouvi isso percebi que aceitar a “viver o que está ai” é a camada protetora que as pessoas usam para não pirar em meio ao caos quando este parece progresso, -como uma droga tomada para se alienar dos problemas.
Ah, por favor! Eu não quero essa proteção! Não falo do asfalto e edifícios, nem do horizonte cinza, mas do cinza-concreto que passou a estar em cada coração, e o pior! Passou a ser buscado por nós mesmos para estar em nossos corações.
Como eu odeio a cidade que eu amo!
O céu de noite parece cada vez mais distante...



