Mostrando postagens com marcador adeus. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador adeus. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Diga que você pode ver!

(Imagem: daqui)

A rotina, às vezes, não nos deixa meditar sobre a natureza de nossos trabalhos. Estava fazendo as contas de quantas pessoas perdemos do ano passado pra cá. Foram pais, mães, avós, irmãos e amigos... Não consegui mais ter a certeza depois do número quatorze. E estávamos nos mantendo tão longe, então outras coisas também os alcançaram. Ao somar os que se foram infectados, os pais e irmãos de meus colegas e amigos e alguns colegas, a ficha caiu como quando você percebe um carro prestes a te atropelar. 

Passo algumas noites em claro às vezes. Não consigo confiar no que vejo na TV, pois pra mim os números tem nomes. E a doença é tão lucrativa para quem só sabe contar. O medo é a maior fonte de lucro que a humanidade poderia se apropriar. Há ausências em muitas casas conhecidas e isso faz tanta falta no dia a dia no trabalho e depois que estou em casa... Não tinha parado para pensar por talvez não querer sentir, mas foi como tentar curar uma ferida apenas botando a mão no lugar de onde o sangue está saindo!

Não conseguia parar de questionar as chances de ter levado o mal para muitos deles quando nos procuravam, mesmo com todos os cuidados, mesmo sem apresentar sintomas. No dia a dia falamos para esquecermos, que o risco é a natureza de nosso trabalho nessas ocasiões e que seria pior se não estivéssemos ali. Muitos de nós também não caímos? Alguns para nunca mais... Era uma guerra desde o inicio, e de que serviram os pacifistas se não nos deixaram enxergar? 

De um ano pra cá eu tenho dormido mal às vezes, e tenho me privado de algumas coisas para que pessoas não se percam. Mas agora tudo isso pareceu tão inútil que senti vergonha por não ter chorado essas dores antes. Por não ter lutado com todas as armas disponíveis. Agora é tão fácil entender que não adianta ter um lugar para voltar se as pessoas que iluminavam esse lugar não estão mais lá. Virei um robô de um ano pra cá e não consegui enxergar até os faróis inundarem minha retina. 

Pensar que filtrar as informações e agir com base nisso numa passividade inexplicável nos livraria do mal foi uma ilusão. Nós protegemos as portas e as janelas para depois olharmos atônitos a inundação solapar os alicerces por outros motivos também. A casa está de pé, mas qualquer vento balança toda lagrima agora. Que peso maldito! Que escolha furada ser um pacifista em um mundo em guerra! A punição para esses será pior. Lidar com as ausências já é... 

Nós que estamos aqui vamos fazer a única coisa digna que nos resta que é reerguer espíritos e humanidade. Para os que foram sem despedidas dignas, vão em paz! Que o Criador os receba em Seu seio e nos perdoe por nos curvarmos tão fácil ao mal e às ameaças.

sábado, 1 de fevereiro de 2020

As árvores da Hermes Fontes

(Imagem: Arquivo pessoal 15.12.19)

Eu trocaria a Amazônia e um punhado de ambientalistas por você. Queria estar sentindo a perda como alguém que dá valor a algo apenas na hora do fim, como quem passa sem perceber a todo instante por esse algo, não sabendo diferenciar o objeto de acalanto do resto da paisagem. Assim a dor duraria pouquíssimo tempo. Mas seu cheiro, barulho e até o reflexo do sol no fim da tarde em meio à avenida poluída e barulhenta estão cravados em minha pele e memória desde a adolescência.

Uma vez li uma HQ em que um gangster se opunha ao progresso dos negócios do seu chefe, pois, para isso acontecer, partes da cidade que ele tanto amava (amar era a palavra certa que não foi empregada, mas gangsteres e homens de coração armado como eu dificilmente usam essa linguagem) teriam que deixar de existir. Ele morreu por conta disso. Eu percebo isso agora quando uma parte de você é cortada sob o aclamado pretexto do progresso feito por homens que não se planejam.

Eu venderia cada litro do Atlântico com toda a sua flora, como aquele homem vendia drogas na HQ, para pagar o preço de ver você de pé enquanto transitava para qualquer lugar. Não queria ter me apegado, mas foram tantas partidas que a única coisa que fazia tudo ficar junto e aquecido de novo era o cheiro que você deixava na avenida poluída em determinadas épocas do ano, então os rostos, as vozes e sorrisos voltavam em minha mente como se fossem coisas eternas.

Você deveria ter partido depois de mim, porque ciclistas não servem para nada, e poucos minutos de ganho no transito não são mais importantes que as pessoas que marcaram vidas naquela parte da cidade que só você sabia os caminhos. Esse é o motivo de eu ter me apegado a você como um amigo que traz noticias de quem partiu para longe. Egoismo não é ter a mão no mundo todo e roubar quem tem apenas uma avenida?

Deixe o papo de conformismo para quem gosta de se conformar. Não há pessoas que falam com as paredes e as ouvem? Escolhi um punhado de árvores, as quais nunca perguntei os nomes, e que agora já se foram, para um papel semelhante. Mal não havia. Outros também foram te ver no primeiro domingo depois do inicio do fim. Alguns também tiveram seus caminhos por ali, e nossos olhares diziam:  "Adeus, portal de memórias. Até nunca mais!"