quarta-feira, 14 de abril de 2021

Aos que vieram "de além desse monte" e às crianças que hoje nele brincam!

                                          

(Vídeo: daqui)

Num dia 14 de Abril, há 76 anos, a Força Expedicionária Brasileira rompia a linha de defesa alemã que impedia a retomada da Itália pelos aliados no evento conhecido hoje como A Batalha de Montese. Foi uma das frentes em que mais soldados brasileiros sofreram baixas na Segunda Guerra. Nossos pracinhas chegaram em terreno hostil, sem equipamento eficaz (os americanos doaram uniformes contra o frio e armas) e lutaram contra uma das maiores máquinas de guerra da história.

Até pouco antes da pandemia, crianças se reuniam com suas famílias na região que está liberta ainda hoje na Itália para cantar a Canção do Expedicionário em nossa própria língua, como forma de reconhecimento e gratidão aos heróis que ali lutaram e aos que não voltaram.
É emocionante ver idosos e adultos olhando suas crianças balançando pequenas bandeiras e cantando uma canção em outra língua que não a de nascimento. 

Naquela época, muitos outros pais e avós de filhos e netos que hoje poderiam existir, foram privados de suas vidas e liberdades para que sonhos mesquinhos pudessem aflorar, e parte do mundo se uniu contra. Nós fizemos parte disso! Pensar que hoje acusamos uns aos outros do que um dia lutamos para por um fim tão longe de casa, a um custo de nosso próprio sangue, é de envergonhar. 

Ao ver crianças, frutos dos feitos que menosprezamos, serem gratas em canções que não sabemos cantar, creio que o pedido de gratidão hoje deve partir do lado de cá, por não terem deixado esse ato ser esquecido e nos lembrar que podemos nos unir por causas realmente justas.


Obrigado, FEB! Obrigado, Itália!

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Diga que você pode ver!

(Imagem: daqui)

A rotina, às vezes, não nos deixa meditar sobre a natureza de nossos trabalhos. Estava fazendo as contas de quantas pessoas perdemos do ano passado pra cá. Foram pais, mães, avós, irmãos e amigos... Não consegui mais ter a certeza depois do número quatorze. E estávamos nos mantendo tão longe, então outras coisas também os alcançaram. Ao somar os que se foram infectados, os pais e irmãos de meus colegas e amigos e alguns colegas, a ficha caiu como quando você percebe um carro prestes a te atropelar. 

Passo algumas noites em claro às vezes. Não consigo confiar no que vejo na TV, pois pra mim os números tem nomes. E a doença é tão lucrativa para quem só sabe contar. O medo é a maior fonte de lucro que a humanidade poderia se apropriar. Há ausências em muitas casas conhecidas e isso faz tanta falta no dia a dia no trabalho e depois que estou em casa... Não tinha parado para pensar por talvez não querer sentir, mas foi como tentar curar uma ferida apenas botando a mão no lugar de onde o sangue está saindo!

Não conseguia parar de questionar as chances de ter levado o mal para muitos deles quando nos procuravam, mesmo com todos os cuidados, mesmo sem apresentar sintomas. No dia a dia falamos para esquecermos, que o risco é a natureza de nosso trabalho nessas ocasiões e que seria pior se não estivéssemos ali. Muitos de nós também não caímos? Alguns para nunca mais... Era uma guerra desde o inicio, e de que serviram os pacifistas se não nos deixaram enxergar? 

De um ano pra cá eu tenho dormido mal às vezes, e tenho me privado de algumas coisas para que pessoas não se percam. Mas agora tudo isso pareceu tão inútil que senti vergonha por não ter chorado essas dores antes. Por não ter lutado com todas as armas disponíveis. Agora é tão fácil entender que não adianta ter um lugar para voltar se as pessoas que iluminavam esse lugar não estão mais lá. Virei um robô de um ano pra cá e não consegui enxergar até os faróis inundarem minha retina. 

Pensar que filtrar as informações e agir com base nisso numa passividade inexplicável nos livraria do mal foi uma ilusão. Nós protegemos as portas e as janelas para depois olharmos atônitos a inundação solapar os alicerces por outros motivos também. A casa está de pé, mas qualquer vento balança toda lagrima agora. Que peso maldito! Que escolha furada ser um pacifista em um mundo em guerra! A punição para esses será pior. Lidar com as ausências já é... 

Nós que estamos aqui vamos fazer a única coisa digna que nos resta que é reerguer espíritos e humanidade. Para os que foram sem despedidas dignas, vão em paz! Que o Criador os receba em Seu seio e nos perdoe por nos curvarmos tão fácil ao mal e às ameaças.

domingo, 21 de março de 2021

A cidade sob o céu - III Movimento


(Imagem: de um dia depois do trabalho)


Cumulonimbus ou Ar rarefeito ou Caos

Todo dia a noite apaga
A estrela que ilumina
E o vento levava as folhas
Que se enroscavam no portão
E furacões levavam bairros inteiros
Quando morávamos no mesmo quarteirão

E eu tinha de estar de leve bêbado
Para alcançar aquela felicidade
Mas nós nunca conseguíamos lembrar
E já é tempo de esquecer
Não quero ver a festa acabar
O que mesmo podemos mover?

Podia jurar que essa samba era um blues
Ah, eu podia jurar!
Mas não, não é. Não sei por que não é.

Vem ver uma coisa que meu pai tem na gaveta
Você ainda se assusta com essa imagem?
Ele me fez prometer que eu iria esquece-la
Quando voltasse a ficar triste

Ah, minha cara. Lá fora
Há tantos gritos e explosão
Aqui dentro é tão difícil. Confusão
E você chorava por uma estrela
E eu pelas constelações
Enquanto furacões levavam bairros inteiros
Os furacões levavam bairros inteiros!


domingo, 14 de março de 2021

A cidade sob o céu - II Movimento


(Imagem: de um dia depois do trabalho)


Stratu ou Asfalto Molhado

O céu atrás das nuvens
Asfalto molhado
Poças d'água nas calçadas
Posso te ouvir daqui
Ou a centenas de quilômetros
Ela está sugando a sua vida
Posso ver daqui
Ela sugando a sua vida

Ei, pegue uma guitarra
E grite bem forte!
Vamos nos trancar no quarto 
E cantar o mais alto que pudermos
Para bem longe daqui
Para centenas de quilômetros
Se parar a cidade matará você
É, ela matará você!

Então deixe o vento até quebrar o concreto
Mas não vamos parar com a canção
É amor enquanto o efeito não passa
Será amor até o efeito acabar
Se parar a cidade te matará
Se parar a cidade matará você
Isso é tudo o que ela sabe fazer
Isso é o melhor que ela pode fazer

Quando chove
O asfalto molhado cheira à margarina
Quando chove
Nossa cidade inunda, das portas às esquinas


domingo, 7 de março de 2021

A cidade sob o céu - I Movimento


(Imagem: de um dia depois do trabalho)


Cirrus ou Calçadas e jardins

Ombros em todas as direções
Olhos e olhares e as multidões
Vias em tons escuros, em caminhos que atravessamos
Vias invisíveis, fios de cabelo flutuando
Ruídos soando em lindas canções

Projéteis procurando abrigo
Num coração perdido
Paraísos e abismos
Pores do sol esquecidos
Firmamento derramado
E câmbio flutuando
Pra partir daqui tem que lutar

Há um rumo certo em outra direção
Na contramão das cópias de cópias
E dos homens anarquistas
E dos homens em Mercedes
E de todo o ódio da TV
E do "Ser ou não ser?"
Que agora é a razão

Um mergulho na multidão
Atravessamos as barreiras invisíveis
Na vida in flutuando

Que a chuva lave a cidade que eu amo
Que a chuva leve a cidade que eu amo
Que a chuva leve e lave o tanto quanto
Eu odeio a cidade que eu amo


domingo, 21 de fevereiro de 2021

Pausa para os comerciais

(imagem: daqui)

Todas as pessoas que admiro
Morreram felizes no dever
Não é estranho o garoto da TV?
Ele diz como será nossa vida
Quando seus amigos viram lembranças
Você sabe que está só
Estava traindo a mim mesmo
Mas assumo a culpa por aqui

A vida não é um comercial

Há caminhos de prudência
Eles tem luz em seu fim
Não é estranho o garoto da TV? 
Todos querem copia-lo
Todas as pessoas que amei
Elas não foram iguais
Fizeram de nossa juventude um auge
Por que não nos permitimos filhos ali?

Nossas vidas não são comerciais

Se sua paciência te deixar que espere
Gostaria de dizer algo cafona
Não é estranho o garoto da TV?
Ele nos transmite apatia
Então uma briga poderia resolver tudo
Mas fingimos esquecer e deixamos de nos gostar

A vida não é um comercial
Nossas vidas não cabem ali, não.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Como sair do labirinto (Texto encontrado!)

(Imagem: daqui)

Decidimos por uma tragédia e depois por um erro. O melhor dos erros, no caso. Não trataremos disso agora, erros são erros, mesmo que cada um ame os seus.  

Mas eu não vim aqui para ficar, por isso a pressa. Daqui do fim do mundo, tudo é espantosamente fugaz. veja as pessoas que são uma revolução, elas buscam pares que são seus opostos e assim a dança nunca tem fim. Essa mesma dança me deixou tonto por muitos anos. Eu sei o que acontece no olho do furacão. O ódio cega e tudo  vira o nome que você escolheu dar - Ladeira abaixo, beco sem saída.

Os filhos dos homens não tem desculpas para serem reféns, nem para amar os dois lados do ódio. Não precisamos sangrar os semelhantes acusando quem xingou o palavrão mais feio, quem atirou a pedra mais longe, quem mentiu primeiro. As pessoas que ainda estão nessa dança só pensam que vieram aqui para ficar por não darem um passo para fora e respirar. 
Cada lado edifica um degrau escolhendo a parte do corpo de alguém que precisará deixar de existir para o alicerce estar fixo. Quanto tempo corpos e regras duram num mundo que fica sentado na porta de casa esperando todos nós passarmos? 

Eu não vim aqui para ficar. Eu não vou levar o seu sangue! Nesse exato momento luto para não revidar, mas você dança de uma forma tão bela que atrai o meu oposto e eu fico. Por você eu fico. Eu quero te convencer e você a mim. Nós nos amamos ao mesmo tempo em que queremos um ao outro mortos, pois a música nunca para de tocar. Alimentamos essa dança, pois achamos que vamos estar aqui amanhã ou depois de amanhã, mas não fomos feitos para ficar, não do modo que estamos. Os construtores e desconstrutores sabem disso. Todos eles.

O olho do furacão é perigoso para eles, pois denuncia uma paz maior fora desse caos, mas nem precisaremos passar pelo caos de novo para alcança-la. Existem outras danças, outros ares e outros sons. O redemoinho não é o melhor caminho. Não vamos entrar por ele. Estive à beira da morte e estou aqui, no contratempo, para te contar. Estamos construindo compassos para prisões dos que virão depois de nós, sejam dos que dançam no tempo ou dos que preferem não.
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Precisamos estar ao lado dos que param. Ao lado dos que foram atacados por ambos os lados e não acharam abrigo em lugar algum. Apenas os que entram pelas janelas são ladrões. Apenas os que entram por elas! Os que saem pulando através delas é que herdarão a terra. Não há portas de saída por aqui. Só enxergamos isso quando paramos a dança. Quando atraímos a guerra não alimentando ela. Mas ai já não importará o que fazem a nós. Nesse momento é que percebemos que não somos dos que vieram aqui para ficar. 

Não construiremos prisões para os que vierem depois de nós de qualquer um dos lados. Os compassos vazios serão as janelas que deixaremos para eles na canção, sem sangue, ódio ou rancor. Um caminho para a porta fora daqui que só existe no silêncio. Uma porta de onde dá para ouvir uma voz encorajadora suave a falar: "O que fazes aqui?" E nos libertar.