domingo, 23 de janeiro de 2022

De coisas não ditas

(imagem: daqui)

Pensava em um monte de coisas para te dizer antes de chegar até você, mas as esquecia em sua presença. Hoje elas ficam em minha cabeça durante à noite agora que não nos veremos mais. Só a lembrança de suas últimas palavras de bênçãos me trazem o conforto. Sinto mais luto pelo mundo que te perdeu do que por sua partida, embora a ausência doa. 
Você foi digno!  Até breve! Até sempre!

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

As canções de Natal e de Ano Novo

(Imagem: daqui)

Toda vez que o Natal se aproxima, uma leve melancolia toma conta de Dezembro a partir de sua segunda metade. Ela não me alcança de forma direta, mas abraça algumas pessoas queridas ao redor, me dobrando por um tempo. Fico feliz por esse sentimento estar sendo cada vez mais raro com o passar dos anos. Mas agora há também uma espécie de alívio por poder ser feliz sem culpa depois de ter aceitado a impossibilidade arbitrária nessas datas de não poder estar em mais de um lugar ao mesmo tempo. 

Como filho de pais separados, passava cada fim de ano com uma parte da família. Era tão normal quanto todas as famílias que passam o fim de ano de jeito que elas passam. Só as fotografias que ficavam me devendo mais gente. Eu gosto muito das cores, comidas, das conversas e da noite. Gosto também das luzes. Elas nunca foram amigas de meus olhos, mas de noite algumas são aceitáveis. Ninguém que se importa deveria passar datas como essas sem lembranças de momentos felizes.

Lembro de um Natal onde fiquei de me encontrar com parte de minha família na nova casa de amigos e acabei entrando em uma casa desconhecida por engano. As pessoas dali me receberam e conversaram comigo. Todos que me abraçavam achavam que alguém naquela casa me conhecia e me tratavam bem por respeito à ela, falando de coisas de suas vidas e de como estavam felizes por eu ser amigo dessa pessoa da casa que achavam que tinham me convidado para estar ali e que nunca existiu. Esse é um sentimento que dá segurança ao mundo, sustenta ele até aqui, certamente. 

Acho que fiquei ali por tempo suficiente para me atrasar para a minha família, mas também entendi que aquelas pessoas também tinham outras pessoas que não podiam estar especificamente ali naquele dia. E que a felicidade delas naquele momento era uma forma de fazer todos os outros felizes, até os ausentes. Então uma coisa nesse sentimento me mudou para sempre, como quando nas músicas suaves é introduzida uma batida de bumbo a cada tempo no peito. E essa mudança foi a certeza de que, uma coisa é dobrar com um sentimento que você nem sabe o nome, mas suporta por fazer parte de todos, e outra é, daí em diante, sorrir com entendimento, por entender que isso faz parte de todos.

Se você não ficar olhando diretamente para as luzes, vai ver que o fim do ano é como as canções que tornam um momento mais leve enquanto são ouvidas, pois trouxeram um entendimento que só aquele período poderia trazer.  
Sei que, mais uma vez, não estarei em mais de um lugar ao mesmo tempo este ano. Só que agora há uma canção leve no peito dizendo que está tudo bem. Que pode-se ser feliz com essa arbitrariedade de nossa incapacidade de onipresença nessas ocasiões.  

Lembro que nos anos 90 o ano durava 365 dias, hoje ele passa em uma semana. Seja feliz. Não desperdice isso.

domingo, 21 de novembro de 2021

Motivo aleatório

(imagem: daqui)

O último raio de sol que alaranjava o céu inteiro do fim da tarde, o castanho do seus olhos e o amarelo de seus cabelos que ficaram da mesma cor do seu olhar depois que você cresceu. O tom, o cheiro e a forma de nossas vidas naquela escola e de cada um de nós depois de tudo. As brincadeiras, o beijo, o riso. Os desencontros e o choro. Todas essas coisas voltavam à memória pelo motivo mais banal sem dar explicação. 

Relembrar que vivemos tudo isso sem nenhuma experiência, como quem dá um triplo mortal sem uma rede para amortecer as quedas, me deixava surpreso em como a vida permite sentimentos tão gigantescos em corações tão pequeninos.
Não entendíamos o sentido, nem aos sete e nem depois dos quatorze. E não havia um ser ao redor que desse bola para o que dizíamos. O que veio depois disso foi o avassalador desejo de reviver o que foi bonito, pela pureza e verdade de que só quem não sabe que pode quebrar o pescoço pela altura que pula consegue realizar. 

Havia um tempo em que qualquer motivo aleatório trazia de volta uns braços ao redor, o sorriso e o beijo. Hoje eu me peguei pensando nisso e em como a vida usa nossos cândidos saltos despreocupados, para transformar nas redes a tecer a segurança do amanhã que nem imaginávamos existir em separado. 
Todo amor que vivemos, e que um dia nem teve tempo de despedida, serviu para nos provar que o mundo é belo e vale a pena toda vez que a realidade viesse nos bater o contrário. 

Nos achamos e desencontramos para que pudéssemos entender o que não deixar ir quando a vida trouxesse o que completasse nossa felicidade. Foi esse o motivo de termos nos ligado. É esse o motivo de sorrimos hoje em separado, não era para ser pra sempre. Estamos gratos pelo que nos foi trazido agora como se fosse a primeira vez. Essa foi a maneira mais bela que a vida arrumou para nos fazer aprender. 


quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Adeus à cidade


(Imagem: daqui)

Eles levaram tudo
Eles levaram tudo pra o outro lado da cidade
Nada mais é como antes
Nada mais é como antes que bom que seja para a cidade

Te encontrava às tardes e não podíamos voltar
Por aqueles dias não dava pra adiar
Os desencontros em nossa idade
Ainda não mandávamos em nossas vontades

Eles tiraram tudo
Eles tiraram tudo o que havia de nós na cidade
Agora nos perdemos fácil
Nos perdemos tão fácil nos caminhos de infância

Seu nome escrito em papéis de cartas
E hoje em dia números bastariam
Pra te encontrar na cidade
Somos lembrança e fotografias

Te vi um dia com sua nova família
Te reconheci
Pelo sorriso e os brincos

Você perguntava
Se ficavam bonitos
Em você e na cidade

Nós nunca dissemos adeus
Nós nunca fomos apresentados
À palavras tão sem sentido

(Adeus a você e à cidade)


terça-feira, 21 de setembro de 2021

Aula de inglês

(Imagem: daqui)


Qual o seu nome?
Prazer em conhecer!
Quantos anos tens?
De onde você é?

Boa noite!
Até mais!
Não consigo entender
Como posso dizer
Os sons dos corredores?

Onde estamos mesmo?
É tão familiar
Quantas vezes nós
Demos voltas, voltas, voltas?

Quadros na parede
Estou me mudando
Estou procurando
Estou procurando
O som do seu nome

sábado, 21 de agosto de 2021

Os olhos não veem o que o coração não sente

(Imagem: daqui)

Na nossa pluralidade de pessoas iguais por dentro, o ódio é o novo amor dos que querem mudar o mundo de ambos os lados. O novo amor não nos deixa sentir os laços antigos de amizade e união. Mas eles estão em cada esquina, nas mesmas casas, e-mail, rede social e numero de telefone. 
Quando passamos a tomar para nós convicções, nossos afetos ficaram incertos, distantes e difíceis de enxergar. 

Nos retratos e lugares que passamos existem agora pessoas a evitar onde antes haviam amigos, irmãos e outros modos de amor. Elas são as mesmas pessoas de antes que a convicção impediu  o coração de ver. O colírio para a cura encontra-se no tijolo que sustenta nossas novas certezas e só pode ser alcançado se ele for quebrado. 

Por enquanto, e só por enquanto, os olhos não veem porque os corações não sentem. Mas tudo isso passará.

quarta-feira, 21 de julho de 2021

Sobre o nada

(Imagem: daqui)


O nada é uma pradaria de gigantes
De um profundo que não podemos conceber
Um outro nome para essa altura
É o intervalo de tudo
Do todo de todos
Do limite onde a existência toca o seu oposto
E a tudo inunda com sua água

É a fronteira da linguagem, da compreensão
É o universo sem nós para os que se importam com egos
É o ego mortificado quando semeia-se o amor
Como uma menina que canta quando devia estar no trabalho
E trabalha cantando pois sabe que tudo é uma coisa só

Infinitos universos caberão ali
Não é nada que se possa medir
Está dentro e fora de nós e sendo preenchido
Ficando invisível aqui no meio da sala
É só uma medida para nos situarmos
Mas está errada, pois não é nada do que sabemos. 
Não é nada.