segunda-feira, 21 de junho de 2021
Aracaju blues
sexta-feira, 21 de maio de 2021
Volto ao amanhecer
É tão interessante perceber que a cada ano de chuvas a antiga cidade alaga mais.
Há dois lugares que sempre volto para dentro, dois lugares de dois períodos da vida, quando quero estabilizar as coisas. E aqui fora já não é como se fosse eu quando chego neles. Quando estou lá tudo me basta e o agora não tem importância. É como se ficasse estagnado no presente enquanto a vida está correndo dentro de mim. Frio por fora, quente na mente. E a mente molda o mundo sem precisar sorrisos. Foi assim que afastei muita gente. Minha droga.
Todas as pessoas que chegaram perto o suficiente para perceber que parecia haver dois em um só nesses curtos períodos de tempo se afastaram, mas elas não deveriam se sentir culpadas, pois eu aplainei os caminhos para elas partirem sem pensarem em voltar. Sem sentir culpa por isso. Mas você me seguiu até aqui e eu não pude entender a razão.
Há um terceiro lugar aqui dentro e eu raramente me dou conta quando chego - eu nem sei se chego ou se ele me inunda - ele é o deserto. E você estava lá naquele dia enquanto eu estava ali despido por dentro. Como você conseguiu chegar sem pensar em ir embora?
Nos outros dois lugares sempre diziam que era como se houvesse outra pessoa. Alguém já me falou que eu parecia ser uma outra pessoa e que havia outro de mim por aí. E de todos que chegaram perto o suficiente para perceber isso me distanciei. Elas não tinham culpa. Eu só tinha medo. Eu não as ignorava, eu ignorava o presente e boa parte do que estava inserido nele. Eu dizia pontos de vista, mas eram pontos de fuga. Mas você me viu no deserto, não consigo entender como.
Eu pensei em perguntar como havíamos chegado ali, ou o que havia te atraído, mas você olhava como se soubesse que o deserto é tempo e não caminhos. Foi por isso que você me seguiu? Você sempre soube que o deserto com alguém deixa de existir?
Sempre que chove aqui na cidade e na cidade vizinha, parece que tudo sempre alaga mais que na vez anterior. Mas esse ano foi diferente. Eu não sei explicar. Credito isso ao fato de ter muito mais gente trancada dentro de casa e trancada dentro de si por conta disto.
Eu encontrei dois pontos de fuga em minha escuridão, dois pontos de luz. Mas eu sei que é muito escuro dentro de nós, para ficar tranquilo por todos os trancados durante o mal que nos sobreveio esses últimos anos. É por isso que quando encontramos essa pequena luz, não queremos mais sair de lá. E fugimos de quem descobre que andamos por esse caminho, ou dos que dão o menor sinal de que vão nos descobrir.
As pessoas mais importantes, todas as que chegaram perto o suficiente de um "parece haver dois de você!", elas não tem culpa. Há paisagens estáveis que precisam ser visitadas, partes delas não existem mais no mundo lá fora. Você sabe que elas não existem mais.
sexta-feira, 7 de maio de 2021
Às vezes
(Imagem: daqui)
Não há problema em a cidade amanhecer desse jeito. É porque, toda vez que chove, parece que o tempo para. Isso não é o mesmo que desejar sentir que tudo inunde ou que a chama se apague.
No som da chuva, a vida se acalma e nosso espirito se expande pelo silêncio causado no mundo e em nosso ser, por conta da música nos telhados e folhas.
Manhãs chuvosas são como canções em shoegaze.
quarta-feira, 21 de abril de 2021
O herege da pós-modernidade
Quando, ali encostado no portão, lembrei de certas coisas ocorridas nos últimos anos e há poucos meses - como amigos amáveis agora abduzidos e meio mundo fazendo chacota de uma mulher contando o relato de seu estupro, por ela não ser como eles, como se rir disso fosse ok enquanto agora desrespeitar uma robô que nem existe é o fim do mundo e algo a ser levado à sério - e ri daqueles homens. Eles não entenderam. Eu não sou de explicar.
Nesse quase um quarto de Século XXI, nosso relativismo moral faz entender como chegamos à brutalidade das três grandes ideologias nefastas do Século passado e, comparado a situação de pandemia atual e até da Peste há cem anos, esse mesmo relativismo faz ambas serem simples "gripezinhas". Não há vírus mais nefasto que uma forma de pensar ancorada no nada, levada pela maré ao sabor do desejo de posse ou liberdade da moda. Assim abrigamos o que mais infecta a raça humana desde o seus primórdios: a indiferença com quem está em nossos caminhos.
Aquele portão ficou fechado e os homens foram embora. Mas eles não são homens de ir embora, pois sabem que já não encontram tanta resistência ao seu evangelho. Temo o que o resto desse século nos reserva, embora não ligue muito. As palavras são doces e quase convencem, mas eu vi o que elas podem fazer na prática até às pessoas que são amáveis.
quarta-feira, 14 de abril de 2021
Aos que vieram "de além desse monte" e às crianças que hoje nele brincam!
(Vídeo: daqui)
Num dia 14 de Abril, há 76 anos, a Força Expedicionária Brasileira rompia a linha de defesa alemã que impedia a retomada da Itália pelos aliados no evento conhecido hoje como A Batalha de Montese. Foi uma das frentes em que mais soldados brasileiros sofreram baixas na Segunda Guerra. Nossos pracinhas chegaram em terreno hostil, sem equipamento eficaz (os americanos doaram uniformes contra o frio e armas) e lutaram contra uma das maiores máquinas de guerra da história.
É emocionante ver idosos e adultos olhando suas crianças balançando pequenas bandeiras e cantando uma canção em outra língua que não a de nascimento.
Obrigado, FEB! Obrigado, Itália!
quarta-feira, 7 de abril de 2021
Diga que você pode ver!
A rotina, às vezes, não nos deixa meditar sobre a natureza de nossos trabalhos. Estava fazendo as contas de quantas pessoas perdemos do ano passado pra cá. Foram pais, mães, avós, irmãos e amigos... Não consegui mais ter a certeza depois do número quatorze. E estávamos nos mantendo tão longe, então outras coisas também os alcançaram. Ao somar os que se foram infectados, os pais e irmãos de meus colegas e amigos e alguns colegas, a ficha caiu como quando você percebe um carro prestes a te atropelar.
Passo algumas noites em claro às vezes. Não consigo confiar no que vejo na TV, pois pra mim os números tem nomes. E a doença é tão lucrativa para quem só sabe contar. O medo é a maior fonte de lucro que a humanidade poderia se apropriar. Há ausências em muitas casas conhecidas e isso faz tanta falta no dia a dia no trabalho e depois que estou em casa... Não tinha parado para pensar por talvez não querer sentir, mas foi como tentar curar uma ferida apenas botando a mão no lugar de onde o sangue está saindo!
Não conseguia parar de questionar as chances de ter levado o mal para muitos deles quando nos procuravam, mesmo com todos os cuidados, mesmo sem apresentar sintomas. No dia a dia falamos para esquecermos, que o risco é a natureza de nosso trabalho nessas ocasiões e que seria pior se não estivéssemos ali. Muitos de nós também não caímos? Alguns para nunca mais... Era uma guerra desde o inicio, e de que serviram os pacifistas se não nos deixaram enxergar?
De um ano pra cá eu tenho dormido mal às vezes, e tenho me privado de algumas coisas para que pessoas não se percam. Mas agora tudo isso pareceu tão inútil que senti vergonha por não ter chorado essas dores antes. Por não ter lutado com todas as armas disponíveis. Agora é tão fácil entender que não adianta ter um lugar para voltar se as pessoas que iluminavam esse lugar não estão mais lá. Virei um robô de um ano pra cá e não consegui enxergar até os faróis inundarem minha retina.
Pensar que filtrar as informações e agir com base nisso numa passividade inexplicável nos livraria do mal foi uma ilusão. Nós protegemos as portas e as janelas para depois olharmos atônitos a inundação solapar os alicerces por outros motivos também. A casa está de pé, mas qualquer vento balança toda lagrima agora. Que peso maldito! Que escolha furada ser um pacifista em um mundo em guerra! A punição para esses será pior. Lidar com as ausências já é...
Nós que estamos aqui vamos fazer a única coisa digna que nos resta que é reerguer espíritos e humanidade. Para os que foram sem despedidas dignas, vão em paz! Que o Criador os receba em Seu seio e nos perdoe por nos curvarmos tão fácil ao mal e às ameaças.
domingo, 21 de março de 2021
A cidade sob o céu - III Movimento
Cumulonimbus ou Ar rarefeito ou Caos






