domingo, 14 de março de 2021

A cidade sob o céu - II Movimento


(Imagem: de um dia depois do trabalho)


Stratu ou Asfalto Molhado

O céu atrás das nuvens
Asfalto molhado
Poças d'água nas calçadas
Posso te ouvir daqui
Ou a centenas de quilômetros
Ela está sugando a sua vida
Posso ver daqui
Ela sugando a sua vida

Ei, pegue uma guitarra
E grite bem forte!
Vamos nos trancar no quarto 
E cantar o mais alto que pudermos
Para bem longe daqui
Para centenas de quilômetros
Se parar a cidade matará você
É, ela matará você!

Então deixe o vento até quebrar o concreto
Mas não vamos parar com a canção
É amor enquanto o efeito não passa
Será amor até o efeito acabar
Se parar a cidade te matará
Se parar a cidade matará você
Isso é tudo o que ela sabe fazer
Isso é o melhor que ela pode fazer

Quando chove
O asfalto molhado cheira à margarina
Quando chove
Nossa cidade inunda, das portas às esquinas


domingo, 7 de março de 2021

A cidade sob o céu - I Movimento


(Imagem: de um dia depois do trabalho)


Cirrus ou Calçadas e jardins

Ombros em todas as direções
Olhos e olhares e as multidões
Vias em tons escuros, em caminhos que atravessamos
Vias invisíveis, fios de cabelo flutuando
Ruídos soando em lindas canções

Projéteis procurando abrigo
Num coração perdido
Paraísos e abismos
Pores do sol esquecidos
Firmamento derramado
E câmbio flutuando
Pra partir daqui tem que lutar

Há um rumo certo em outra direção
Na contramão das cópias de cópias
E dos homens anarquistas
E dos homens em Mercedes
E de todo o ódio da TV
E do "Ser ou não ser?"
Que agora é a razão

Um mergulho na multidão
Atravessamos as barreiras invisíveis
Na vida in flutuando

Que a chuva lave a cidade que eu amo
Que a chuva leve a cidade que eu amo
Que a chuva leve e lave o tanto quanto
Eu odeio a cidade que eu amo


domingo, 21 de fevereiro de 2021

Pausa para os comerciais

(imagem: daqui)

Todas as pessoas que admiro
Morreram felizes no dever
Não é estranho o garoto da TV?
Ele diz como será nossa vida
Quando seus amigos viram lembranças
Você sabe que está só
Estava traindo a mim mesmo
Mas assumo a culpa por aqui

A vida não é um comercial

Há caminhos de prudência
Eles tem luz em seu fim
Não é estranho o garoto da TV? 
Todos querem copia-lo
Todas as pessoas que amei
Elas não foram iguais
Fizeram de nossa juventude um auge
Por que não nos permitimos filhos ali?

Nossas vidas não são comerciais

Se sua paciência te deixar que espere
Gostaria de dizer algo cafona
Não é estranho o garoto da TV?
Ele nos transmite apatia
Então uma briga poderia resolver tudo
Mas fingimos esquecer e deixamos de nos gostar

A vida não é um comercial
Nossas vidas não cabem ali, não.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Como sair do labirinto (Texto encontrado!)

(Imagem: daqui)

Decidimos por uma tragédia e depois por um erro. O melhor dos erros, no caso. Não trataremos disso agora, erros são erros, mesmo que cada um ame os seus.  

Mas eu não vim aqui para ficar, por isso a pressa. Daqui do fim do mundo, tudo é espantosamente fugaz. veja as pessoas que são uma revolução, elas buscam pares que são seus opostos e assim a dança nunca tem fim. Essa mesma dança me deixou tonto por muitos anos. Eu sei o que acontece no olho do furacão. O ódio cega e tudo  vira o nome que você escolheu dar - Ladeira abaixo, beco sem saída.

Os filhos dos homens não tem desculpas para serem reféns, nem para amar os dois lados do ódio. Não precisamos sangrar os semelhantes acusando quem xingou o palavrão mais feio, quem atirou a pedra mais longe, quem mentiu primeiro. As pessoas que ainda estão nessa dança só pensam que vieram aqui para ficar por não darem um passo para fora e respirar. 
Cada lado edifica um degrau escolhendo a parte do corpo de alguém que precisará deixar de existir para o alicerce estar fixo. Quanto tempo corpos e regras duram num mundo que fica sentado na porta de casa esperando todos nós passarmos? 

Eu não vim aqui para ficar. Eu não vou levar o seu sangue! Nesse exato momento luto para não revidar, mas você dança de uma forma tão bela que atrai o meu oposto e eu fico. Por você eu fico. Eu quero te convencer e você a mim. Nós nos amamos ao mesmo tempo em que queremos um ao outro mortos, pois a música nunca para de tocar. Alimentamos essa dança, pois achamos que vamos estar aqui amanhã ou depois de amanhã, mas não fomos feitos para ficar, não do modo que estamos. Os construtores e desconstrutores sabem disso. Todos eles.

O olho do furacão é perigoso para eles, pois denuncia uma paz maior fora desse caos, mas nem precisaremos passar pelo caos de novo para alcança-la. Existem outras danças, outros ares e outros sons. O redemoinho não é o melhor caminho. Não vamos entrar por ele. Estive à beira da morte e estou aqui, no contratempo, para te contar. Estamos construindo compassos para prisões dos que virão depois de nós, sejam dos que dançam no tempo ou dos que preferem não.
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Precisamos estar ao lado dos que param. Ao lado dos que foram atacados por ambos os lados e não acharam abrigo em lugar algum. Apenas os que entram pelas janelas são ladrões. Apenas os que entram por elas! Os que saem pulando através delas é que herdarão a terra. Não há portas de saída por aqui. Só enxergamos isso quando paramos a dança. Quando atraímos a guerra não alimentando ela. Mas ai já não importará o que fazem a nós. Nesse momento é que percebemos que não somos dos que vieram aqui para ficar. 

Não construiremos prisões para os que vierem depois de nós de qualquer um dos lados. Os compassos vazios serão as janelas que deixaremos para eles na canção, sem sangue, ódio ou rancor. Um caminho para a porta fora daqui que só existe no silêncio. Uma porta de onde dá para ouvir uma voz encorajadora suave a falar: "O que fazes aqui?" E nos libertar.

domingo, 27 de dezembro de 2020

Retratos

(Imagem daqui)

Mais uma ceia. Três gerações. Algumas ausências vencidas pela tecnologia. Mesa cheia e corações também. Conversas até a madrugada. Despedidas, sorrisos, luar e estrelas. Esquecemos das fotografias, dos papéis de memórias que olharíamos no futuro para falar deste dia. Não faz mal, papéis se perdem, queimam ou molham. 

No intimo sabemos que o que passamos há poucos dias não caberia em nenhum retrato. Nossos rostos e almas livres não se lembraram dos detalhes que a felicidade ocultou. Os anjos no céu registraram e em breve teremos isso para sempre. 

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Por favor, não abaixe o volume!


(imagem: daqui)

Não há motivos para se envergonhar
Também choro por pretéritos mais-que-perfeitos
E em presentes do indicativo
O tempo conjuga bem todas as lágrimas
Palavras, às vezes, são só um erro



quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Retalhos de fins de tarde

(Imagem: daqui)

"Olá! Tem alguém aí?" - Ela fala abrindo a porta, sorrindo. Eu sempre me escondo na cozinha esperando ela passar direto para surpreende-la. Ela sabe que não sou tão criativo em esconderijos quanto sou em fugas, mas a reação é a mesma enquanto o vento inunda tudo por causa da porta aberta do apartamento. Então sempre sorrimos e largamos as coisas pelo chão, as coisas que eram importantes lá fora até o exato momento em que passamos por aquela porta. À tarde o frescor é tão legal. Eu sei que está quente lá fora. Todo mundo sabe. Mas nada disso consegue nos alcançar, a não ser de forma subliminar. 

Eu tinha um grande herói nos tempos de faculdade. Era o Dilbert. É, esse mesmo das tirinhas. Meus colegas diziam ser um mal sinal e alguns professores perguntavam o que eu estava fazendo ali quando sabiam. Mas sempre pensei que o Superman teria sido mais legal se, quando botasse os óculos, se transformasse nele. Seria uma ótima maneira de se salvar depois de salvar o mundo. Mas heróis são estranhos. O Dilbert não era estranho. Era mais lógico que a matemática aplicada nas tardes em sala de aula. Talvez fosse só um lugar errado e eu nunca assumirei.

Essa semana "reencontrei" dois grandes amigos e lembramos de nossas vidas juntos, nossas tardes juntos. Enquanto a ligação e as mensagens de texto eram trocadas, eu tive a certeza de que, em algum lugar do universo, nossas lembranças são coisa sólida acontecendo novamente. Há coisas tão felizes dentro de nós que quando a voz do outro lado nos faz recordar levanta até uma dor. E é bom, mas também tão melancólico, pois fico pensando quem sustentará tudo isso quando já tivermos passado. Mas também é  como se, profundamente, houvesse uma certeza de que o universo está aí por causa de nós e de que não haverá esquecimento. 

Nossas lembranças mantém universos inteiros e não quero aceitar o que acontecerá com eles quando tivermos partido. Toda a vida é passado e futuro, mas o presente é infinito. Apesar de ser o único lugar em que estamos, nenhum ser humano cabe no presente - Estou convicto disto desde o fim de tarde de hoje - É por isso que sustentamos universos dentro de nós.