terça-feira, 21 de setembro de 2021

Aula de inglês

(Imagem: daqui)


Qual o seu nome?
Prazer em conhecer!
Quantos anos tens?
De onde você é?

Boa noite!
Até mais!
Não consigo entender
Como posso dizer
Os sons dos corredores?

Onde estamos mesmo?
É tão familiar
Quantas vezes nós
Demos voltas, voltas, voltas?

Quadros na parede
Estou me mudando
Estou procurando
Estou procurando
O som do seu nome

sábado, 21 de agosto de 2021

Os olhos não veem o que o coração não sente

(Imagem: daqui)

Na nossa pluralidade de pessoas iguais por dentro, o ódio é o novo amor dos que querem mudar o mundo de ambos os lados. O novo amor não nos deixa sentir os laços antigos de amizade e união. Mas eles estão em cada esquina, nas mesmas casas, e-mail, rede social e numero de telefone. 
Quando passamos a tomar para nós convicções, nossos afetos ficaram incertos, distantes e difíceis de enxergar. 

Nos retratos e lugares que passamos existem agora pessoas a evitar onde antes haviam amigos, irmãos e outros modos de amor. Elas são as mesmas pessoas de antes que a convicção impediu  o coração de ver. O colírio para a cura encontra-se no tijolo que sustenta nossas novas certezas e só pode ser alcançado se ele for quebrado. 

Por enquanto, e só por enquanto, os olhos não veem porque os corações não sentem. Mas tudo isso passará.

quarta-feira, 21 de julho de 2021

Sobre o nada

(Imagem: daqui)


O nada é uma pradaria de gigantes
De um profundo que não podemos conceber
Um outro nome para essa altura
É o intervalo de tudo
Do todo de todos
Do limite onde a existência toca o seu oposto
E a tudo inunda com sua água

É a fronteira da linguagem, da compreensão
É o universo sem nós para os que se importam com egos
É o ego mortificado quando semeia-se o amor
Como uma menina que canta quando devia estar no trabalho
E trabalha cantando pois sabe que tudo é uma coisa só

Infinitos universos caberão ali
Não é nada que se possa medir
Está dentro e fora de nós e sendo preenchido
Ficando invisível aqui no meio da sala
É só uma medida para nos situarmos
Mas está errada, pois não é nada do que sabemos. 
Não é nada.


segunda-feira, 21 de junho de 2021

Aracaju blues


(Imagem: de um retorno pra casa)


Atire
Atire pra o céu
Derrube as estrelas
Atire mais uma vez
Bem em meu coração
Bem em meu coração!

Demonstre
Demonstre a grandeza 
Que você herdou
Demonstre mais uma vez
Todo amor por quem te odeia
Tanto amor por quem só te odeia!

E de tão longe assim
É seguro mentir 
E te deixar feliz

E você sente-se tão feliz
Ou um pouco enganado
É, um pouco enganado

sexta-feira, 21 de maio de 2021

Volto ao amanhecer

(Imagem daqui)

É tão interessante perceber que a cada ano de chuvas a antiga cidade alaga mais. 

Há dois lugares que sempre volto para dentro, dois lugares de dois períodos da vida, quando quero estabilizar as coisas. E aqui fora já não é como se fosse eu quando chego neles. Quando estou lá tudo me basta e o agora não tem importância. É como se ficasse estagnado no presente enquanto a vida está correndo dentro de mim. Frio por fora, quente na mente. E a mente molda o mundo sem precisar sorrisos. Foi assim que afastei muita gente. Minha droga. 

Todas as pessoas que chegaram perto o suficiente para perceber que parecia haver dois em um só nesses curtos períodos de tempo se afastaram, mas elas não deveriam se sentir culpadas, pois eu aplainei os caminhos para elas partirem sem pensarem em voltar. Sem sentir culpa por isso. Mas você me seguiu até aqui e eu não pude entender a razão. 

Há um terceiro lugar aqui dentro e eu raramente me dou conta quando chego - eu nem sei se chego ou se ele me inunda - ele é o deserto. E você estava lá naquele dia enquanto eu estava ali despido por dentro. Como você conseguiu chegar sem pensar em ir embora?

Nos outros dois lugares sempre diziam que era como se houvesse outra pessoa. Alguém já me falou que eu parecia ser uma outra pessoa e que havia outro de mim por aí. E de todos que chegaram perto o suficiente para perceber isso me distanciei. Elas não tinham culpa. Eu só tinha medo. Eu não as ignorava, eu ignorava o presente e boa parte do que estava inserido nele. Eu dizia pontos de vista, mas eram pontos de fuga. Mas você me viu no deserto, não consigo entender como.

Eu pensei em perguntar como havíamos chegado ali, ou o que havia te atraído, mas você olhava como se soubesse que o deserto é tempo e não caminhos. Foi por isso que você me seguiu? Você sempre soube que o deserto com alguém deixa de existir?

Sempre que chove aqui na cidade e na cidade vizinha, parece que tudo sempre alaga mais que na vez anterior. Mas esse ano foi diferente. Eu não sei explicar. Credito isso ao fato de ter muito mais gente trancada dentro de casa e trancada dentro de si por conta disto. 

Eu encontrei dois pontos de fuga em minha escuridão, dois pontos de luz. Mas eu sei que é muito escuro dentro de nós, para ficar tranquilo por todos os trancados durante o mal que nos sobreveio esses últimos anos.  É por isso que quando encontramos essa pequena luz, não queremos mais sair de lá. E fugimos de quem descobre que andamos por esse caminho, ou dos que dão o menor sinal de que vão nos descobrir. 

As pessoas mais importantes, todas as que chegaram perto o suficiente de um "parece haver dois de você!", elas não tem culpa. Há paisagens estáveis que precisam ser visitadas, partes delas não existem mais no mundo lá fora. Você sabe que elas não existem mais. 


sexta-feira, 7 de maio de 2021

Às vezes

(Imagem: daqui)

Não há problema em a cidade amanhecer desse jeito. É porque, toda vez que chove, parece que o tempo para. Isso não é o mesmo que desejar sentir que tudo inunde ou que a chama se apague.

No som da chuva, a vida se acalma e nosso espirito se expande pelo silêncio causado no mundo e em nosso ser, por conta da música nos telhados e folhas.

Manhãs chuvosas são como canções em shoegaze.


quarta-feira, 21 de abril de 2021

O herege da pós-modernidade

 (Imagem: daqui) 

Os homens que querem mudar o mundo, lutar pelo bem universal e pela igualdade na terra, vieram até a minha porta hoje outra vez. Na verdade eles nem precisariam, já que estão em minha TV e smartphone lá dentro de casa. Me aconselharam que era bom questionar as coisas e abrir sempre a mente. Mas eu não caí nessa conversa. Sei o modo que serei tratado se questionar determinadas coisas na frente deles, pois outros vieram antes. Mesmo sem precisar. 

Quando, ali encostado no portão, lembrei de certas coisas ocorridas nos últimos anos e há poucos meses - como amigos amáveis agora abduzidos e meio mundo fazendo chacota de uma mulher contando o relato de seu estupro, por ela não ser como eles, como se rir disso fosse ok enquanto agora desrespeitar uma robô que nem existe é o fim do mundo e algo a ser levado à sério - e ri daqueles homens. Eles não entenderam. Eu não sou de explicar. 

Nesse quase um quarto de Século XXI, nosso relativismo moral faz entender como chegamos à brutalidade das três grandes ideologias nefastas do Século passado e, comparado a situação de pandemia atual e até da Peste há cem anos, esse mesmo relativismo faz ambas serem simples "gripezinhas". Não há vírus mais nefasto que uma forma de pensar ancorada no nada, levada pela maré ao sabor do desejo de posse ou liberdade da moda. Assim abrigamos o que mais infecta a raça humana desde o seus primórdios: a indiferença com quem está em nossos caminhos.

Aquele portão ficou fechado e os homens foram embora. Mas eles não são homens de ir embora, pois sabem que já não encontram tanta resistência ao seu evangelho. Temo o que o resto desse século nos reserva, embora não ligue muito. As palavras são doces e quase convencem, mas eu vi o que elas podem fazer na prática até às pessoas que são amáveis. 

Depois de decretarem a morte de tudo o que é sagrado, agora existe um outro evangelho a ser pregado. Mas eu não sou dos que dizem amém para ele. Eles não vão me ver ajoelhar. Prefiro trilhar com os outros por um outro caminho, ainda que agora estreito e impopular.