segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Enquanto a chuva não vem


(Imagem: Daqui)



Por favor chuva, inunde minha cidade até um milhão de vezes o mais alto arranha céu. Enxague nossos corações secos. Leve embora até a roupa de nossos corpos, nos traga de volta a vergonha e leve embora o medo de sentir dor.Venha de súbito, no momento de maior distração, nos desperte de toda alienação de nós mesmos. 

Por favor chuva, destrua minha cidade até o mais sólido alicerce, arraste nosso caráter falso para o fim do mundo. Não poupe nada nem tema ser implacável com ninguém, lembre-se que somos bem piores do que gostaríamos de ser. Quando vier chuva, por favor, leve tudo com você. Estamos todos precisando de um recomeço.

domingo, 14 de outubro de 2012

Um dia no trabalho

(Imagem: Através dos tempos - Manuela Rodrigues - Olhares.com)



Acordar com o céu clarinho, tomar banho para despertar. Escutar as musicas da vizinhança e suas brigas matinais. Tomar café, às vezes não. Encher a pele de protetor solar. Cheiro de talco de bebê em parte do material de trabalho – sempre lavar antes das pesagens.

Sol gostoso na rua logo cedo, pessoas chamando meu nome. Ponto assinado, agendas a preencher. Trabalho a ser feito, sorrisos e pé na estrada. Vento-de-vez-enquando, suor misturado com perfume e protetor solar, ruas com cheiro de cocô de cachorro (depois que chove é pior).

Pessoas acordando e indo trabalhar, pessoas dormindo e ficando em casa, eu acordado e por vezes dormindo na casa delas. Sorrisos, cantadas e esquivos. Lábios sorrindo, bocas cantando. Xingamentos e desculpas, fingimentos e malícia. Assaltos frustrados, pernas pra quem te quero. Telefonemas e cansaço.

Sol a pino e cheiro de flores, perfume de mulheres que são o alicerce do mundo, minha cara de criança olhando para elas. Assinaturas e adeus. Carros passando rentes ao corpo, eu no meio da rua de novo. Cachorros de rua, velhos amigos, gatos, preguiça... Que vontade de estar em casa! Telefonemas e sorrisos, explicações.

Conversa jogada fora, confidências, pessoas desconhecidas. Homens nervosos, doentes e doenças. Velhas felizes, solidão dentro da porta e em meu coração. Baby doll e cachorros assassinos. Promessas e esquecimento – lápis e papel como remédio. Relatórios e avaliações, descanso e diversão. Vidas que me observam. Amor em todos os endereços, esperança nas calçadas, salário no fim do mês.

Depois, tudo outra vez.


domingo, 7 de outubro de 2012

Depois da escola

(Imagem : Relações intemporais num futuro incerto - Pedro Enes - olhares.com)

Dizem que os amigos que você faz na escola duram a vida toda. Talvez porque seja a única época que se possa fazer coisas estúpidas na vida sem se importar tanto. Ninguém liga para os erros enquanto ignora o futuro, ninguém liga para os erros enquanto ignora os defeitos e não tem a noção certa do que é correto fazer.

Arrumar confusão é divertido na época do colégio. Quando você baixa a guarda, vive aproveitando os momentos e descobrindo, se torna um “idiota” para a maioria das pessoas, elas realmente se incomodam e eu nunca saberei o porquê. Tentam a todo custo fazer meninos e meninas únicos tornarem-se cópias de cópias, então exageram e isso pode incluir visitas a sala da direção, suspensão ou policia na entrada do colégio. Talvez seja seguro para os mais velhos lidar com pessoas iguais. 

Pra quê esconder as coisas? Para quando errarmos nos condenarem como a um criminoso? A honestidade é sempre o melhor remédio. Tenho o dever de dizer que erro mais do que acerto quando tento explicar a alguém os caminhos para um comportamento correto. Tenho o dever de fazer isso com amor. É por isso que em certa idade os amigos que não se importam com cara feia nem promessas de punição, buscando com sinceridade diversão ou soluções, podem ter muito mais influência na vida de uma pessoa do que pais, professores e autoridades. Então o futuro fica por conta de que tipo de pessoas deixamos que nos influencie.

No mais, nesse tipo de amizade, não há perigo, nem quando se está numa briga que não sabemos como começou. Sempre levei comigo a sensação de que nunca seriamos pegos, quase nunca isso se concretizava. Mas estar na pior, cercado de gente que se gosta, é melhor do que ganhar o mundo e levar uma vida amarga. Nem sempre gostei da escola, embora ache fascinante um lugar feito para aprender e ensinar coisas... 

Houve uma época de minha vida que andei de guarda baixa fazendo coisas “idiotas”. Sou feliz e isso se deve, em parte, por causa daquela época. Estou feliz por saber que todos nós estamos bem hoje. A vida é um constante aprendizado. Eu ainda me sinto como nos tempos da escola, contando as horas para aprender e ir ver as coisas de verdade. Boas lembranças.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

O colecionador de pores do Sol


(Pôr do Sol do dia 27.09.12 tirada com celular).

Durante parte de minha adolescência costumava fotografar o Sol da janela de minha antiga casa toda vez que ele ia embora. Eram imagens bonitas das várias cores que o céu ficava durante o crepúsculo e raramente notamos. Verde, rosa e azul escuro eram as cores que mais me impressionavam. Acabei perdendo 99% das fotografias, então passei a ser apenas um observador. Deixei de levar o Sol para casa toda vez que ele descia. Agora só na memória.

Quinta passada estava indo rever amigos e notei o Sol indo para o outro lado da terra enquanto a cidade voltava pra casa.  A tarde estava cinza com as nuvens pesadas que derramariam chuva por todo o fim de semana, então ele apareceu atrás das nuvens pintando tudo de laranja antes de ser encoberto novamente. “Até amanhã!” acenei com a cabeça. É preciso viver com a esperança de que sempre amanhecerá.
 Nenhum pôr do Sol é igual. Deus é o maior artista do Universo.



sexta-feira, 31 de agosto de 2012

"Hy", dear!




Na volta do trabalho encontrei sem querer uma porta para o quente recanto das memórias. Estava tudo tão suspenso, tudo cheio... as pessoas olhavam para mim, comentavam, e uma leve melancolia me fazia pensar "tanto faz" para a vida. Sei o que você vai dizer, que não vai acreditar, mas vou ficar aqui por enquanto.

Ninguém deveria se sentir sozinho num mundo cheio de gente, mas eu não quero o mundo todo, nunca quis.
Eu vou aparecer quando tudo passar, de surpresa quando o sol estiver se pondo em frente ao rio que abraça nossas casas, nosso bairro. 

Vou sair desse esconderijo quando ele estiver as portas da destruição. Já consegui uma vez, por qual razão não conseguiria de novo?

As vezes nossos inimigos tem as palavras mais confortantes. É tão arriscado acreditar. Não me espere chegar, estou inalcançável agora. Solidão é uma senhora de corpo quente e mãos frias.

Quando as paredes começarem a ruir eu abrirei a porta, talvez eu ainda consiga mesmo se demorar mais.
Seu olhar e belo sempre que o sol enfraqueçe, mas agora tanto faz.Não entendo sua falta de confiança ao ouvir que estou feliz,e não há razões para ficar apreensiva. É claro que eu vou sair dessa, só não me espere chegar e me desculpe pelo sono perdido, dessa vez não pude evitar.


segunda-feira, 9 de julho de 2012

Tão leve para o mundo


(Imagem: daqui)


Pra te falar a verdade eu gostaria que chovesse toda essa noite. Não somente pelo fato de dormir com chuva ser bom, mas por que também a chuva silencia todo o barulho que o mundo faz. Tudo fica em silêncio em respeito ao choro do céu, daí eu pego esse respeito emprestado e fico pensando que é só por minha causa.

Madrugadas chuvosas despertam sentimentos que elevam a alma e são difíceis de descrever, como se fosse esperança e ainda assim é mais que isso. Não dá mesmo para dizer o que é. Não com as palavras que estão nos dicionários. Há um grito preso em minha garganta, ou talvez seja só canção.

Noites chuvosas devem ser desesperadoras para os da rua, sem abrigo e família (para brigarem e serem felizes), como eu na medida do possível. Como é fácil pensar com um teto sobre a cabeça. Em tempos que a felicidade é vendida em garrafas na TV não posso esperar muito. Não devo. Eu só queria que essa chuva não passasse logo quando começar. As nuvens anunciam e eu a espero.

A felicidade está num dia de sol, eu sei, mas também em noites chuvosas de asfalto molhado e ruas silenciosas. Claro, e em nossas atitudes em relação a ambos. Só assim meu coração aquieta.

sábado, 30 de junho de 2012

Branca de neve e os espelhos trincados

(Imagem Daqui)

Eu a via em suas mechas em meio à rotina, rindo da aparência do homem que vestia espelhos.
Uma velha senhora com um cesto de maçãs a tocou e perguntou o motivo do escárnio com o homem que vestia espelhos. "Ele só reflete você" - Branca ouviu assustada. 
E eu que me espantei com a aparência da velha, já ia chama-la de bruxa quando percebi ela refletindo a mim também. 

Nos contos de fadas da vida real a realidade é sempre para além das aparências.