segunda-feira, 30 de abril de 2012

Revisitando saudades

(Imagem: Arquivo pessoal)

Alguma coisa acontece no meu coração. Que só quando cruza a Hermes Fontes e a Avenida Barão.

Em algum lugar, algum dia estaremos todos juntos novamente. Nem que seja por um momento apenas.

domingo, 25 de março de 2012

Um romance adolescente


(Video: Dawn Landes - Straight Lines)

Quando te conheci, você me mostrou uma outra face do mundo e me prometeu mais. Eu sempre acordava em meu quarto depois das noites e madrugadas que passávamos juntos sem saber como havia chegado em casa. Você era como a chuva caindo sobre a minha cabeça, depois me deixava latejando até ao meio dia. Às vezes era difícil de te encontrar, você sumia por dias me deixando mal, foi então que percebi o quanto passei a depender de você para poder continuar seguindo em frente.

Me sentia só e era só você que me dava paz e centro, mas você ia embora cada dia mais cedo do que de costume. Quando vaguei pela cidade à sua procura encontrei sua casa e todos os garotos da cidade à sua espera, foi uma cena da qual não me esquecerei. Tentei dar doze passos para fora dali, por seis meses não consegui e me vi na fila dividindo você com todos da cidade. Eu te amei de inicio, eu juro, mas agora você estava levando minha alma...

Tentei mil vezes caminhar para longe de você, mas sempre caia no sexto passo. Eu queria resolver as coisas com a minha própria força, à força. E foi no chão que supliquei e Ele ouviu a minha voz, pegou-me em Seus braços e completou por mim a caminhada para longe de você. Ainda pude ouvir você gritar promessas e sorrir para mim, é mesmo lindo o seu sorriso, todos na cidade sabem disso. Minhas feridas foram curadas, Ele me deu roupas novas e me lavou, depois apontou o caminho que eu deveria seguir “estarei sempre por perto” - Ele me falou sorrindo.

Nas raras vezes em que te encontrei depois, te vi nos braços de meninos na flor da idade e senti-me feliz por não haver a menor chance de voltar. Mesmo depois do dia em que você trouxe todos os meus velhos amigos para que eles me convencessem a reatar os laços perdidos, fiquei contente ao dizer não. Romances como o nosso só têm mesmo um final feliz depois da separação.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Acampamento de verão



(Imagem Lu almeida. Fonte: Overmundo)

Alguns insetos têm o instinto muito aguçado para o calor (outros para a luz). E quando os dias são chuvosos ao extremo, esses insetos conseguem achar abrigos aquecidos assim como os magnatas da indústria acham minério nos confins da terra.

Tenho um desleixo muito grande com o tipo de coisa que ainda estou às portas para compreender. E no meio do mato, é claro para qualquer um que, uma barraca num dia de chuva é um prato cheio para qualquer tipo de inseto. Eu poderia apenas puxar quatro zíperes e não teria que ficar “caçando” aranhas, formigas, lagartas e outras coisas que nem sabia que existiam no mundo lá dentro da barraca. As aranhas me driblavam como se fosse um jogo de futebol enquanto as lagartas apenas ignoravam minha presença.

Alguns insetos são como pessoas. Alheios ao mundo em redor, não fazem noção da dimensão do espaço em que estão inseridos. Tenho certeza de que, para aqueles bichos, a mata minúscula era todo o universo do qual eles tinham conhecimento. Nascer, viver e morrer sem ter noção do mundo ao redor é mesmo aterrador. Alguns insetos são mesmo como os seres humanos. A diferença é que os insetos machucam menos. Porém mesmo sendo tão parecidos em inteligência eu continuo preferindo as pessoas.

Todos nós estamos esperando o sol nascer (às vezes estamos alheios a isso também) enquanto vivemos o que sabemos. Nossas vidas são um acampamento longe de casa. Nós não sabemos de nada.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Leves sentimentos na vida real



Parabéns, pai! É hora de correr. Correr de alegria é claro. Vamos todos correr!

Vamos para junto das lembranças de quando éramos ingênuos com relação à vida. Parabéns, pai sempre desejei dizer isso das outras vezes - nos anos anteriores. Nunca me acostumei. E acho que a sorte não é o refúgio dos fracos, às vezes, ter sorte é uma benção. Temos muita sorte, os dois. 
Ainda não aprendi a me comunicar em silêncio, sempre enfio os pés pelas mãos e acabo falando quando é hora de calar e não escuto o silêncio. Sei que você não entende tudo também. Quando respiro fundo antes dos atos complexos tudo flui melhor e até mais depressa - essa é minha máquina do tempo particular.

Vamos aproveitar esse dia juntos, eu vou anotar tudo o que quero dizer para não esquecer. Espero que dê tempo. Sempre me atraso, mas nunca esqueço. Jamais. Distância é algo tão relativo nos dias de hoje. Talvez se um de nós estivesse do outro lado do mundo fossemos mais próximos. Talvez não e temos sorte por isso. Creio que o dia mais especial entre uma pessoa e Deus, seja o dia em que os dois consigam se encontrar.  Parabéns pai! Temos muita sorte por isso também.


terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Despertar do sono profundo

Eu poderia por a culpa nas guerras e na parte do capitalismo que não cabe nos padrões utópicos de humanidade.  Poderia por a culpa nos outros, nos meus falhos relacionamentos familiares, no meu time que não ganha nada há dez anos já - dói a cabeça só de lembrar!

Gostaria de poder explicar na mesma intensidade com que realizo as coisas, pois se entendessem o que antes de se materializar parece apenas confusão, não me impediriam no exato momento em que tudo esta dando certo. Eu não traio a mim mesmo, mas assumo a culpa por aqui.

Quando um sonho exige tudo de nós, mergulhamos numa profundeza tão intensa que o mundo a nossa volta parece ficar diferente. Parece que a linha que equilibra todo o universo passa pelas suas mãos, por entre os dedos. E é tão fácil de tocar. Você já se sentiu assim antes de algo que espera muito aconteça? Eu ainda não consegui manter o controle. O universo inteiro é demais para minhas mãos.

É nessas horas quando o sonho pede espera que sinto todo o peso de tudo o que sacrifiquei bater. Não é arrependimento, eu olho para trás e me vejo estar maior em todos os sentidos, mas há um tempo na vida em que o tempo para. Isso é antes das grandes conquistas... Por qual razão tem de ser assim?

Dessa vez a espera se fez tão longa e sólida que me fez despertar de cada sonho alimentado dia a dia. Eu simplesmente os esqueci por alguns dias. Parecia estar louco, tudo parecia estar louco. Talvez tenha passado 30 dias como quem acaba de despertar de um coma que durava anos. Um homem sem sonhos é como alguém sem vida ou memória...

Quando assistia uma animação feita na virada do século (estou aficionado por essa animação) o personagem principal, sentado como estava, olhou para a tela e falou: “Boas noticias chegam para quem sabe esperar” eu não acreditei quando ouvi. Parecia uma daquelas cenas em que, nos filmes, o cara da TV ou rádio fala com o ator, como nos desenhos do pica-pau. (Eu não estava tão louco assim, ele falou comigo). E no fim do filme quando deveria aparecer os créditos finais surgiu no canto da tela em letras garrafais um “você está vivendo no mundo de verdade?” tão explicito que percebi ser coincidência demais para ficar parado.

Claro que não era meu mundo de verdade, não sem meus sonhos realizados. Lembrei de todas as orações feitas e de como Deus tem um jeito bastante eficaz de reponde-las. Como pude esquecer tudo o que me fez chegar até aqui? Eu ainda não aprendi a esperar? Que vergonha! Os acontecimentos de hoje à tarde me despertaram de verdade em apenas uma frase. Quem diria que Deus usaria um filme pra me fazer acordar.  Obrigado Deus!

A vida é mesmo como os filmes de que gostamos.
“see you, sleepy cowboy”!

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Similis simili gaudet!

(Imagem: arquivo pessoal)

Havia um coração e duas iniciais escritas dentro dele na parede, na verdade estava em toda  parte - eu lembro, pois estava em toda parte. E de todos os casais conhecidos nenhum se encaixava naquelas inicias. Por um tempo não percebi que nossas iniciais formam aquele desenho na parede. Sei disso pois ainda está em toda parte.

Eu tento nem piscar para não perder nenhum detalhe e quando você fala, também ouço estrelas. 
A felicidade não é como o momento se o momento for só por um instante. O que sinto beira o irreal. É como viver numa ilha de paz cercado de caos por todos os lados. Não é a segurança, e sim a certeza da legitimidade. É como estar na pele de outra pessoa e, ainda assim, sentir tudo por si só. Corro, mas não tenho pressa. Sei que as coisas semelhantes atraem as coisas semelhantes. É exatamente como essa atração, pois os opostos só se distraem mesmo.

Quando vivia para mim era só uma vida comum. Agora é bom estar multiplicado em outra pessoa.
E creio que podemos optar por quanto tempo o que se iniciou com um olhar deve durar. Desejo que seja por todo o sempre. E sempre, e sempre, e sempre, e sempre...


quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Volte pra casa, Isadora!

No caminho que Isadora fazia para a escola, via crianças sozinhas nas esquinas ou juntas embaixo de papelões. Quando em sala de aula comentava com as amigas sobre os olhos e olhares dos meninos e meninas que via todos os dias. Isadora perguntava-se por qual motivo só ela percebia e até sentia, o que ninguém mais na escola sentia ou percebia.
Num dia qualquer depois da aula, ela dirigiu-se ao portão da escola e deu de cara com o bando, os meninos e meninas que vagavam pela rua. Aquelas crianças talvez tivessem um lar, por que não iriam para casa? Isadora olhava fixamente para eles e perguntava-se onde estariam os pais dessas crianças. Ela percebeu que o olhar dos meninos e meninas de estômago baldio perguntava ao cruzar com o olhar vazio de Isadora a mesma coisa que havia dentro de seu coração: Onde estarão os pais dessa menina? Como eles serão?
Isadora percebeu a semelhança, fazia de seu caminho de casa para a escola parte e, às vezes substituto, de seu próprio lar, assim como aquelas crianças faziam da rua sua própria casa. Talvez aquele bando, e a menina com certeza, tivessem um lar, mas será que era isso? “Era só uma questão de escolha”. Era o que sempre dizia à minha consciência para ela poder me deixar dormir a noite, muitas vezes esse artifício era em vão.
 Isadora às vezes chorava quando estava sozinha. Quando as brigas com sua mãe tomavam conta da atmosfera do lar e de cada parte de ambas a rua era o refúgio – como o whisky que roubava escondida do pai nas noite silenciosas – mesmo amarga, uma hora se acostumava com ela. Isadora tem sonhos, mas às vezes os esquece por não ter alguém para contar.
Um dia vi Isadora com uniforme escolar e outras crianças vagando pelas ruas. Quando ela percebeu meu olhar em sua direção talvez tivesse percebido o inicio de minha caminhada para a perdição e a minha saida dele, então ela parou em silêncio e esperou meu próximo passo olhando para dentro de meu coração. Ela leu minha vida dessa forma singular enquanto me chamou de “o menino dos folhetos”. Isadora é uma das meninas de coração mais sensível que conheci. E o que aconteceu com ela e tantos outros era uma tragédia. Mas se não enxergar direito, será sempre algo invisível que passa por você, os meninos e meninas que nós nunca lembraremos quando chegamos em casa.
“Volte pra casa” – ela me falou numa rua qualquer com suas palavras antes de eu mesmo perceber que poderia ser salvo: “Eu sei que se pode acostumar com tudo, mas não se acostume com isso. Abrigue-se no coração de alguém, e abra a porta de seu coração também. Pois os caminhos longe disso são apenas asfalto e confusão”. Isso aconteceu há muito tempo e eu era jovem demais para dar esse mesmo conselho a ela, eu era jovem demais para levar Isadora pra casa.