Em umas de minhas andanças pelo calçadão, no centro da cidade, havia um homem com uma bíblia na mão e uma porção de gente ignorando ao redor. Ele perguntava o que salvaríamos de nossas casas em chamas.
Ora! Salvaria a mim mesmo - respondi calado – e talvez alguns CDS e o violão também.
Porém, um velhinho que passou por mim gritou como quem fala – senti que foi um grito. Ele falou: “salvaria as chamas!”.
O homem da bíblia e o velhinho se olharam por alguns segundos de longe e, ainda de longe, se cumprimentaram balançando a cabeça. E eu no meio disso tudo, como um guri no meio da conversa de adultos: Como é?!
Ia rir, mas a curiosidade foi mais forte, cheguei de fininho perto do senhor e como alguém que não se interessa pelo assunto que fala perguntei o por quê das chamas.
Ele olhou pra mim depois começou a andar e falar ao mesmo tempo, e o vento levava boa parte das palavras embora. Até que ele parou e disse com voz firme: “Você tem que ser amigo do fogo, como um marujo tem que ser amigo do mar!”. Minha cabeça já estava rodando e queria saber que horas eram. Foi quando ele falou olhando para uma loja “Olhe pras pessoas! Olhe pras pessoas! Você acha que as roupas que elas vestem é que são importantes? Isso só faz aumentar o medo que já nasce com elas pelo fogo”. (foi algo assim)
Nesse momento percebi que as “chamas” tinham desde o principio um sentido figurado nas palavras daqueles dois homens. Então lembrei de um provérbio japonês que diz: “Meu celeiro foi destruído pelo fogo, agora posso ver a lua”. E como num estalo notei o que queria ser dito. É que as coisas que nos são importantes, às vezes estão invisíveis aos nossos olhos por obstáculos que nós mesmos colocamos, então vem o “fogo” a “água” e o “ar” para levarem consigo esses obstáculos e nos mostrar a vida.
Aquele senhor era amigo do fogo e falava como quem briga, dando até medo de uma aproximação. Mas quando ia embora percebi que em meio a tanta gente no calçadão ele parecia ser o único a estar em paz.
Era porque sabia que por detrás do seu celeiro, e daquelas vitrines imponentes, e daquelas roupas de grife, tinha uma lua brilhando pra sempre para quem quizesse ver, num lugar onde o fogo jamais alcança.