domingo, 31 de julho de 2011

Como um rio de águas claras correndo para um fim

Durante o 5º período da faculdade, o professor de RH convidou a turma para uma visita a um asilo da cidade, eu faria qualquer coisa para não ter que estudar durante aquela semana então topei na hora. Todos da turma combinaram de se encontrar na porta do determinado asilo, para não cair na tentação de ficar pela universidade peguei carona com o professor e ficamos lá na porta esperando o pessoal até percebermos que mais ninguém iria - era semana de provas - então ele decidiu continuar a visita assim mesmo.

Do portão até as instalações do asilo havia uma distância de uns 200 metros - não sou bom de medir com “golpe de vista”, mas acho que era isso - que isolava qualquer ruído da movimentada avenida e até da percepção de parte do mundo lá fora. Ao me explicar como era que funcionava o sistema de administração e doações parei de dar atenção ao que o professor dizia, pois notei um grupo de senhoras católicas cuidando e lendo para alguns velhinhos e outros grupos de espíritas e evangélicos fazendo a mesma coisa com outros velhinhos.

Quando o professor reparou que estava falando sozinho me pediu que acompanhasse ele. Conheci uma senhora que estava ali há certo tempo - ela era cega - e tinha uma boneca nas mãos, aquela senhora estava imóvel como se estivesse vazia, foi ai que meu professor a chamou pelo nome e tocou nos braços dela. Tudo mudou nela, a senhora agiu como quem desperta de um coma, quando ela sorriu perguntando quem era que a estava tocando, suas rugas marcaram os caminhos de sorrisos de toda uma existência. Há um colégio por trás do asilo e eu podia ouvir os gritos de crianças em plena euforia do intervalo e meu professor me falou depois que deixamos à senhora sorridente - viu? Ela só precisava de atenção e contato. Percebeu como ela ficou depois de receber carinho? O sangue voltou a jorrar no rosto dela. Pensei que ela poderia estar ali ouvindo aqueles gritos da criançada livre do outro lado enquanto segurava sua boneca na mão.

- E essa boneca de quem é? - Perguntei a ela.
- É minha filha. - a senhora respondeu.

- Meu Deus - pensei - onde estariam os filhos de toda aquela gente?
Em outros quartos havia pessoas muito velhas que não conseguiam sair da cama, estavam esperando à hora de descansar. Havia um velho muito alterado, também, que tinha raiva de tudo e todos e numa outra visita outra senhora que andava de lá pra cá, chamou minha irmã no cantinho e falou “minha filha ta vendo esse monte de velho? Eu não sou que nem eles não, meu filho vem me buscar, ele só foi viajar e me deixou aqui por um tempo”. As enfermeiras olhavam pra mim balançando a cabeça enquanto minha irmã perguntava quanto tempo ele a tinha deixado ela ali. “Dois anos, mas ele vai voltar e me levar pra casa”.

Eu não julgo as pessoas, sabe? Eu tenho uma avó, e ela dá muito trabalho quando dá na telha. Às vezes é madeira de dar em doido lidar com ela, e as pessoas não entendem o que está se passando. Eu não julgo nenhum dos filhos de cada senhor e senhora que estão em asilos, até por que os motivos são variados. Mas pra mim, deitar a cabeça de noite num travesseiro e pensar que minha avó ou mãe estão num lugar assim, com cuidados, mas sem afeto, me faria sentir pior do que estar no inferno.

Quando saí de lá ouvindo os gritos das crianças na escola ao fundo e com aqueles velhinhos na cabeça, me deu um pouco de nojo de mim e do espírito humano. Vivemos nossas vidas sem nos importar com quem está ao lado, precisando de nós, de um toque só, um ouvido para ouvir, olhos para olhar, em lugares como esse ter boca não é lá tão importante é preciso dar atenção e carinho. Costumamos descartar as coisas que não servem mais para uso como de costume e descartamos até os seres humanos. Alguns senhores e senhoras que estavam ali precisavam mesmo de cuidados especiais, mas outros estavam simplesmente abandonados, como um peso que impediam outros de “viver”.

Um dia esse mês visite um abrigo ou asilo, há pessoas ali que ficariam muito felizes só de ter alguém para conversar, se não tiver tempo arrume. Pois você - se não tiver doença nem sofrer algum acidente ou for assassinado - vai ficar velho. Olhe para os velhinhos que estão dentro de casa também, às vezes o lar é o próprio asilo sem afeto para eles quando são excluídos do resto da família. Eu tenho uma avó, não escrevi isso pra julgar ninguém, a época dela já passou muita coisa que entendemos e fazemos com facilidade é algo de outro mundo para ela. É preciso paciência.

Um dia nossa existência vai chegar ao fim, será que ficaríamos felizes ao olhar para trás e percebermos que só servimos a nós mesmos no meio de tanta gente - num planeta inteiro?

5 comentários:

kamran disse...

very nice post ilike this post

Filipe Dias disse...

Uma vizita como esta realmente nos faz crescer.

Fernanda disse...

Chorei lendo sua postagem, Du. Tenho uma avó MUITO difícil e, apesar disso, não imagino minha família colocando-a em asilo; nem gosto de considerar a hipótese. Por mais que nos magoe, por mais ofensas que ela diga de vez em quando. Me toca muitíssimo a solidão desses velhinhos, fiquei especialmente comovida com a senhora da bonequinha e a que fez questão de dizer que era buscada por um filho só imaginariamente amoroso. Que tristeza, meu Deus. Chega a dar hemorragia de dor na gente. A maioria tem medo de ser deixado sozinho, mas eu acho que tenho mais medo de deixar sozinho, de abandonar. Não que eu seja um exemplo de cuidado e solidariedade. Preciso aprender um milhão de enciclopédias ainda, porém tenho esperança de evoluir o suficiente para encontrar tempo, o mais rápido possível, de fazer visitas frequentes como aquela que você fez. Eu ficaria feliz de ser sua amiga, simpatizei tanto com o coração que li em sua postagem, Du! Beijos, querido, e sucesso no blog! Obrigada, muito obrigada pelo post!!!

João Batista de Lacerda disse...

Bom, gostei.

Sherwani disse...

well, this is really a nice post.I really like the way you start and conclude your thoughts. Thank you so much for this information.