segunda-feira, 7 de julho de 2008

Sobre a solidão em uma madrugada e lembranças do fim do período

(Cidade de Nova Yorque. Imagem: dispositivodevisibilidade.blogspot.com)

Tirando Belchior no violão até altas horas da noite percebo que minha cidade é como um cão faminto e quando o cão late não me deixa dormir. E eu nunca sei onde ele está nem se a causa da insônia – a do bicho-cidade e a minha - é a fome ou algo mais profundo. Agora mesmo os meus amigos estão a distância de um telefonema, ou da solidão mesmo, mas à essas horas... É tão tarde. A solidão então.

O dia começou com a maior cara de fim de mundo e foi embora numa paz que me incomodou. Como se fosse chover – e sempre chove. O céu limpo e claro agora a noite parece céu de verão (isso é ótimo!).

E tudo se deu inicio -a insônia ou algo mais profundo- quando lembrei-me de uma das aulas de quinta-feira, meu professor de mercadológica falava sobre as grandes idéias do Marketing, e dizia como era pouco provável alguém ter essas idéias bebendo apenas leite... Isso me deixou perdidamente agitado, pois era o que eu falava um tempo atrás sobre os grandes feitos da vida, mas deixei de crer nisso, e ele um senhor tão correto falar desse modo como se fosse algo distante a nossa realidade mal suspeitara que suas palavras faziam eco em seu aluno mais careta. Creio que fico assim porque não posso mais. Meu desejo agora é de “um dia de sol e um copo d’água” porque os caminhos longe disso são , as vezes, vazios. E o vazio é muito solitário.

Mas isso já é passado. Grande parte do que foi dito. Só a juventude continua à flor da pele, porém acho que o tempo se encarrega disso também.
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Tento isolar-me para encontrar a vida em si mesma. No entanto apoiei-me demais no jogo que distrai e consola e quando dele me afasto encontro-me bruscamente sem amparo.


No momento em que fecho a porta atrás de mim, instantaneamente me desprendo das coisas. Tudo o que foi distancia-se de mim, mergulhando surdamente nas minhas águas longínquas. Ouço-a, a queda. Alegre e plana espero por mim mesma, espero que lentamente me eleve e surja verdadeiramente diante de meus olhos.
Em vez de me obter com a fuga, vejo-me desamparada, solitária, jogada num cubículo sem dimensões, onde a luz e a sombra são fantasmas quietos. (...)
Sem viver coisas eu não encontrarei a vida, pois? Mas , mesmo assim, na solitude branca e ilimitada onde caio, ainda estou presa entre montanhas fechadas. Presa, presa. Onde está a imaginação? Ando sobre trilhos invisíveis. Prisão, liberdade. São essas as palavras que me ocorrem. No entanto não são as verdadeiras, únicas e insubstituíveis, sinto-o. Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome.


Clarice Lispector – Perto do coração Selvagem

Amanheceu enfim. Bom dia! Vou dormir.





9 comentários:

Leonardo Dognani disse...

nem sempre queremos tanto da vida...as vezes queremos muito, ás vezes TUDO.
realidade. creio que não sabemos o que é isso, num tom mais profundo e real do que nossas vidas atuais.

o valor das coisas mudam, as vezes tão rápidamente que ganham e perdem valor numa velocidade em um numero de vezes absurdos.

mas a vida é assim, constante mudança. se deixarmos repetir as coisas, pode ser chato, porém, se mudar demais perde o foco.

Apenas reflexões e idéias passageiras, como tudo na vida...

Abraços.

Amstalden disse...

Madrugada é mesmo algo místico. Parece que nessa hora do dia, todas as emoções de afloram ainda mais, as nossas angústias, nossas preocupações, nossos amores e saudades. As vontades de alguém, as tristezas da distância. E, quando isto ocorre, a insônia vem junto, impedindo que pensemos em outras coisas...

Ai como seria bom se pudéssemos desligar o pensamento por completo...

http://farmaco-fobia.blogspot.com

Reporter x disse...

otimo texto, voce e bom em escrever, pelo que vi.
oi sou do açaí com Limão
e voce foi comentar, gostei do comentario, mas nao entendi o final:
"e quanto á pesquisa,"
gostaria que voce postasse o resto, é sempre bom a opniao dos leitores =D
Açaí com Limão
www.gafescia.blogspot.com

*.*Allegr!a*.* disse...

A madrugada insone, sinônimo
De quereres não realizados.
E o sonho não vem
Pois estamos acordados...
Ei realidade, pelo menos não grite com a gente.
Seria bom poder dormir, e acordar, e ver a beleza de tudo.
Querer tudo e entender nada.
Quem está acordado me parece estar mais alerta, mas ao mesmo tempo, aqueles que dormem NÃO me parecem mais serenos.

Viva, Viva!!!
Se não dormir, escreva!
Amei.

beijo

Edu França disse...

É meu caro há dias que o a alma vira invólocro da carne, fica tudo invertido e incontido, e faz valer a frase da Clamille Clodel :" há sempre uma ausência que me atormenta"

Erika disse...

Linda a foto! parabens pelo blog!

bjss


www.culturainutil.com.br

Grupo Saber Viver disse...

A clarice é de mais, parabéns pelo blog!
http://gruposaberviver.blogspot.com/

Sue Ellen disse...

Clarice é demais, não?

Anônimo disse...
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